terça-feira, 8 de outubro de 2013

Um encontro com Lacan


Sigmund Freud - A Invenção da Psicanálise (1997)


John Huston (1962) - Freud, Além da Alma (Freud, The Secret Passion) - L...


Alysson Mascaro - Entrevista com Slavoj Zizek no Roda Viva - 08/07/2013


Entrevista de Charles Melman à Istoé

Charles Melman

A era do prazer
Novo destaque da psicanálise, Charles Melman afirma que os indivíduos nunca pensaram tão pouco como hoje e que as ideologias acabaram
Celina Côrtes
O psicanalista austríaco Sigmund
Freud (1856-1939) e o francês Jacques Lacan (1901-1980) provocaram uma revolução ao desvendar com mais profundidade o funcionamento da mente. Embora suas teorias continuem vigorando, o homem que eles analisaram tem diferenças fundamentais em relação ao cidadão do século XXI. Com o cuidado de não minimizar o conhecimento de seus antecessores, o psicanalista francês Charles Melman, 73 anos, está causando uma nova revolução na psicanálise com o livro O homem sem gravidade, gozar a qualquer preço (Ed. Companhia de Freud). Melman faz um retrato de corpo inteiro do novo homem, que põe o prazer à frente do saber e prioriza a estética em detrimento da ética. “O excesso se tornou norma”, diagnostica, com sua voz calma e pausada, à beira da piscina do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Melman esteve na cidade participando de um seminário sobre os laços conjugais na modernidade. O evento, com o título Será que podemos dizer, com Lacan, que a mulher é sintoma do homem?, foi promovido pela associação psicanalítica Tempo Freudiano.
Apesar de ser um dos profissionais mais badalados do momento na psicanálise, seu tom nada tem de arrogante. Melman foi um dos principais colaboradores de Lacan, que o escolheu para dirigir a Escola Freudiana de Paris. Ele fundou a Associação Freudiana Internacional, que mais tarde passou a se chamar Associação Lacaniana Internacional. O psicanalista evita injetar julgamento nas conclusões alinhavadas em seu livro. São constatações sobre a vida moderna, na qual ele vê aspectos positivos, entre os quais a “formidável liberdade”, e negativos, como o processo de substituição das neuroses pela depressão. O que ele batiza como “nova economia psíquica” teria, entre outras coisas, transformado o sexo em uma mercadoria como outra qualquer. Até a morte perde sua sacralidade, segundo Melman. Para ele, a exposição sobre arte anatômica – que está correndo o mundo desde 1997 e exibindo cadáveres plastificados e suas entranhas – seria um forte indício dessa tendência. “A questão atual é exibir. Exibir as tripas, o interior das tripas, o interior do interior”, analisa.

Istoé -O que é a Nova Economia Psíquica?
Charles Melman -
Hoje a saúde mental já não se origina mais da harmonia
com o ideal de cada um, mas do objeto que possa trazer satisfação. Não há
limites. Há uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de se casar ou não, de viver a família, a pátria e os ideais. Essa nova economia psíquica é organizada pela exibição de prazer e implica em novos deveres, dificuldades e sofrimentos. A partir do momento em que há no sujeito um tipo de desejo, ele se torna legítimo, e é legítimo esse indivíduo encontrar sua satisfação. A posição ética tradicional, metafísica, política, que permitia às pessoas orientar seu pensamento, está em falta. O excesso se tornou a norma.
Istoé -Quais são os aspectos positivos e negativos disso?
Charles Melman -
Cada um pode satisfazer publicamente suas paixões contando
com o reconhecimento social, incluindo as mudanças de sexo. Há uma
formidável liberdade, mas ela é estéril para o pensamento. Nunca se pensou
tão pouco. O trabalho do pensamento é comandado por aquilo que produz
obstáculo. Mas nada mais representa obstáculo, não sabemos o que há para pensar. O sujeito não é mais dividido, não se interroga sobre sua própria existência. Como faltam referências, o indivíduo se vê exposto, frágil e deprimido, necessitando sempre da confirmação externa. Assim, o eu pode se ver murcho, em queda livre, gerando uma frequência de estados depressivos diversos.
Istoé -Como o sr. descreveria o indivíduo nessa economia psíquica?
Charles Melman -
A imprensa e a mídia substituíram as fontes de sabedoria de outrora.
Daí resulta um indivíduo manipulável e manipulado. Suas escolhas, opções e comportamento de consumidor é que organizam seu mundo. É uma forma de identificação que, me parece, não foi observada por Freud nem por Lacan.
Istoé -De que forma se dá o rompimento do modelo gerador de neuroses desvendado por Freud ? no qual a relação com o mundo é marcada pela ausência do objeto querido ? e que consequências tem esse rompimento?
Charles Melman -
Com o desaparecimento do limite, não há mais o sujeito do inconsciente de Freud, que se expressava por seus sonhos, lapsos e atos falhos. Se houve uma descoberta feita por Freud é a de que nossa relação com o mundo não se dá por intermédio de um objeto, mas pela falta dele. No complexo de Édipo o objeto em falta é a própria mãe. A pessoa precisava passar por essa perda para estabelecer suas identificações sexuais. Hoje, para se ter acesso à satisfação não é mais preciso passar pela perda, que era uma fonte de neuroses. Do conjunto de pessoas que se consultam nos serviços hospitalares, 15% são casos de depressão. Há, portanto, a emergência de um novo sintoma, a depressão, no lugar das neuroses de defesa.
Istoé -O prazer sexual estaria se banalizando?
Charles Melman -
O sexo realmente se banalizou. É encarado como uma necessidade, já que caiu por terra o limite que o tornava sagrado. Quando se fala em liberação sexual, não se fala mais no desejo. O homem contemporâneo trata o desejo sexual, de certa forma, como simples atividade corporal. A nova economia psíquica faz do sexo uma mercadoria entre outras.
Istoé -De que forma a exposição sobre arte anatômica, apresentada desde 1997 e ainda correndo o mundo, influenciou suas idéias?
Charles Melman -
Com essa exposição a morte deixou de ser sagrada. Passou a ser mais um bem de consumo. Os cadáveres, protegidos da putrefação por modernas técnicas, viram corpos plastificados expostos à visão. Algumas vezes com o interior do cérebro, do sistema digestivo e até um feto dentro do útero à mostra. Milhares de pessoas estão fazendo filas nos museus para ver a exposição. Estamos ultrapassando os limites. Até então, uma das características da espécie humana era destinar seus mortos à sepultura, com o respeito que costuma cercar a morte. A questão atual é exibir. Exibir as tripas, o interior das tripas, o interior do interior.
Istoé -Então não há mais nada que choque as pessoas?
Charles Melman -
Há sim, a pedofilia. Mas, de qualquer forma, os programas de televisão e a imprensa mostram os casos mais escabrosos em detalhes e todos se interessam por esse tipo de noticiário, como se fossem os fatos da atualidade. As jovens que foram violadas acabam sendo exibidas como mais um objeto.
Istoé -Por que a figura paterna foi esvaziada, assim como o lugar da autoridade de uma maneira em geral?
Charles Melman -
O problema do pai, hoje, é que não há mais autoridade, ou a função de referência. Sua figura se tornou anacrônica. Nas famílias, o pai e a mãe passam a ter as mesmas atribuições, o que dificulta a identificação dos filhos com a figura masculina e com a feminina.
Istoé - Por que o sr. diz que a vida política está desértica?
Charles Melman -
Os jovens sempre foram revoltados com a injustiça social. Hoje, no entanto, eles só têm uma vontade: participar da vida social. Eles não protestam contra as injustiças. Querem apenas encontrar um meio de gozar logo os prazeres da vida social. Por outro lado, muitos cidadãos podem constatar que falta potência ao poder político diante das forças econômicas, verdadeiras ‘mestres’ da situação. Então por que se engajar na vida política se ela é impotente para corrigir as desigualdades e dificuldades da vida social? Hoje, acabaram as ideologias, as palavras de ordem e até mesmo as utopias. Os indivíduos preferem eleger pessoas que souberam gerir bem seus negócios. Não há mais confiança nos políticos.
Istoé -Por que tanta desconfiança?
Charles Melman -
Porque nessa sociedade permissiva todas as figuras de autoridade parecem abusivas, é como se não ocupassem mais o seu lugar. É a mesma coisa com o pai na família.
Istoé -Quais são as características desse homem ?sem gravidade??
Charles Melman -
Faltam ao homem de hoje qualidades que lhe seriam singulares. Temos mais a impressão de uma generalização dos traços que se tornaram comuns a todos os cidadãos. É como se eles tivessem mais ou menos as mesmas qualidades e defeitos.
Istoé -Isso pode ser um dos resultados da globalização?
Charles Melman -
Sim. Fui há alguns dias ao Chile, no deserto de São Pedro de Atacama. Lá há um oásis com três a quatro mil pessoas, a maioria de jovens originados do povo inca, que habitava a região. Pelo que se interessam esses jovens de origem indígena, no fundo do deserto? Pelos mesmos objetos de consumo oferecidos em Xangai, no Rio de Janeiro e em Paris. O que vale sua cultura de origem em relação a esse culto de objetos? Nada.
Istoé - Como a estética está ocupando o lugar da ética?
Charles Melman -
O número de jovens que querem fazer teatro é inacreditável, mesmo
os que já têm diplomas profissionais importantes. Por quê? A única maneira
hoje de ser aceito pelos outros é estar em cena, captar os olhares, agradar, ser sedutor, ou seja, a imagem de cada um é que se tornou decisiva para ser aceita e, eventualmente, para ganhar dinheiro. Esses progressos da estética são um ponto positivo da nossa cultura. Por que não? É agradável ver jovens esteticamente cuidados. Mas se torna um problema quando é o principal meio que eles têm para serem admitidos e reconhecidos.
Istoé -O sr. diz que a corrida à juventude perpétua gera um sentimento de desamparo, de falta de referências, ansiedade e cansaço. Pode explicar melhor?
Charles Melman -
Nossa nova economia psíquica é muito jovem. As gerações precedentes estão desorientadas pelos novos problemas. Ser jovem é dar testemunho de
que se participa dessa nova moral e inteligência. Mas, em geral, é bastante
difícil se manter nessa posição. Há, portanto, ansiedade no indivíduo pelo medo de não ser mais reconhecido e apreciado. Antigamente as pessoas idosas eram respeitadas por sua sabedoria. Hoje, são rejeitadas pela velhice dos valores morais, que já não interessam.
Istoé -Quais as influências da publicidade sobre esse novo indivíduo?
Charles Melman -
Os publicitários são muito inteligentes. Precisam transformar
o objeto de necessidade em objeto de desejo. Sabem que podemos nos desinteressar do objeto de necessidade rapidamente, mas o desejo é
permanente. Quer dizer, quando a publicidade quer vender um iogurte é
preciso apresentá-lo como um produto estranho, enigmático. A publicidade
tem um papel pedagógico, que vai no sentido da liberalização dos costumes.
E as crianças são muito sensíveis às suas mensagens.
Istoé -O sr. diz que a mídia também tem um papel importante nesse contexto.
Charles Melman -
Considerável. Como não temos mais grandes textos de referência, a mídia se tornou nosso meio para pensar. Ainda assim, a parte informativa dos jornais diminuiu muito em relação às simples notícias da atualidade. Só interessa ao leitor o que o toca, diretamente ou por ligação afetiva.
Istoé -A nova psique, segundo o sr. diz, está criando também um novo fenômeno linguístico. Estaria surgindo uma nova língua?
Charles Melman -
Os jovens se comunicam por torpedos (mensagens eletrônicas via celular) com uma nova escrita, que tende ao desaparecimento das vogais. O privilégio é das consoantes, com uma ortografia completamente livre, fundada na idéia de que o receptor é incapaz de decifrar minha escrita. É uma escrita que inventa cada frase em particular. Acredito que teremos em breve romances escritos com essa nova linguagem. Os efeitos disso ainda não são previsíveis, mas trata-se de um processo divertido e interessante.

domingo, 6 de outubro de 2013

Link para a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas

Informações e cartilhas sobre enfrentamento à dependência química.

http://portal.mj.gov.br/senad/main.asp?Team=%7B7D6555C3%2D69A4%2D4B66%2D9E63%2DD259EB2BC1B4%7D

Corpo Freudiano - Núcleo Goiânia: 2º Semestre de 2013: Retomada dos Grupos de Estudo...

Corpo Freudiano - Núcleo Goiânia: 2º Semestre de 2013: Retomada dos Grupos de Estudo...: Introdução à leitura de Lacan   Recomeço 12 de agosto de 2013 Este grupo introdutório percorre os fundamentos do ensino de Jaques Lac...

O tratamento psicanalítico com crianças - de Fernanda Costa Moura

 
O tratamento psicanalítico com crianças
Fernanda Costa Moura

Desde seus primórdios, a psicanálise foi marcada pela experiência da psicanálise com crianças. Mas permanece um problema de difícil formalização determinar o que o psicanalista pode oferecer às crianças. A que devemos nos dedicar? Que direção privilegiar? Que elementos da prática é preciso reformular para criar as condições necessárias à psicanálise com crianças?

Freud considera a intervenção junto ao analisante de 5 anos chamado Hans (1909) como um tratamento psicanalítico. E um tratamento que se desenrola com o menino tomando lugar de sujeito, afetado e determinado pelos efeitos da palavra. Mesmo levando em conta as especificidades daquela experiência Freud não preconiza uma psicanálise “de crianças”, uma “psicanálise infantil”. Pelo contrário, Freud toma o menino Hans como alguém confrontado, de fato e de direito, a questões que a condição humana impõe e às quais responde com seus sintomas.

É verdade que o sujeito de que se trata na experiência analítica, sujeito do inconsciente, não se confunde com o individuo nem pode ser aquilatado em termos de etapas de desenvolvimento. Mas o que comparece na experiência clínica mostra que uma criança em análise não é um adulto em análise. De modo que mesmo se uma perspectiva estrutural nos permite ir além de uma visão simplesmente cronológica, seqüencial, desenvolvimentista do sujeito, esta constatação nos remete a uma dimensão temporal que exige dos analistas o trabalho de divisar em cada caso o que pode ser a singularidade da experiência analítica com aquela criança.

A prática clínica com crianças traz uma série de especificidades. Nomeadamente no que se refere à presença dos pais ou responsáveis no tratamento. Pois a criança, ao mesmo tempo em que se relaciona com o Outro – este Outro que é simbólico, para além daqueles que eventualmente o encarnam, entendido como o próprio campo da linguagem e suas leis –, tece esta relação fundamental e constitutiva submetida, em maior ou menor grau, à relação que estabelece com outros reais, como seus pais ou responsáveis. Há especificidades também quanto aos sintomas uma vez que as crianças ainda não estão expostas à experiência do desejo e da castração, - ou ao menos não se acham confrontados com uma experiência que teriam que “assumir em seu nome próprio” (Melman 1986) – e considerando-se que estes sintomas podem nodular questões da criança e de seus outros significativos. Por fim, especificidade em relação ao trabalho de simbolização, muitas vezes realizado através de desenhos, de jogos, brincadeiras, representações, em situações em que a fala pouco comparece ou de todo não comparece. Ao passo que outras crianças verbalizam bastante e realizam seu trabalho através de metáforas, histórias, etc. A todas estas questões e eventuais dificuldades o analista terá que responder, elaborando a cada vez as condições que permitem o trabalho. Porém a questão principal e mais delicada que a prática clínica com crianças parece impor ao psicanalista se refere à ética que conduz sua posição com relação à criança.

Em artigo no qual chama os psicanalistas ao trabalho, para darem ao campo da psicanálise com crianças “um método e uma ordem compatíveis com a psicanálise”, Charles Melman adverte que é importante precisar o que esperamos da criança, o que queremos dela, pois neste campo, mais ainda que em outros “a normalidade é uma questão de ética”(ibid.). Pergunta-se ele: dado que não podemos dar muito mais as crianças do que normas éticas, que podem variar muito em nossa cultura, haveria uma ética psicanalítica referente às crianças?

É uma pergunta realmente importante, decorrente de uma questão que não é exclusiva da psicanálise, mas concerne a todos e é passível de atingir cada adulto que se dirige a uma criança. Uma questão sobre nossa posição: a partir de que posição nos dirigimos a uma criança? O que queremos dela, o que temos a lhe dizer?

Para o psicanalista, naturalmente, isto tem implicação imediata na clínica, pois quando se concebe a normalidade como uma questão ética, deixa-se a esfera dos padrões de comportamentos e se enfrenta a questão da possibilidade ou não da condição subjetiva – uma vez que é somente no campo do sujeito que se pode conceber um posicionamento ético.

E aí justamente encontramos uma dificuldade que é da nossa cultura, do nosso tempo. Vivemos hoje em um mundo que, ao mesmo tempo em que se preocupa com a criança, tematiza este tempo da infância em função de ideais e expectativas com os quais a sobrecarregamos. Ideais que querem a infância como uma espécie de Éden, paraíso da juventude e da inocência a ser desfrutado imediata e plenamente; sem esforço, sem perda, sem trabalho do lado do sujeito. Este mundo, que já não estranhamos mais é o nosso mundo. Com seus costumes e organização próprios, com seu ideal prevalente de uma estrutura familiar conjugal, que faz da criança um foco aglutinador de cuidados, de expectativas e investimentos de toda sorte. Nem sempre foi assim, mas comumente hoje, vemos as coisas através deste prisma que coloca a criança como alguém de quem se deve primeiramente cuidar, a quem se deve proteger, é certo, mas também, num giro, num relance, poupar.

Nestas circunstancias, podem-se tomar duas direções éticas em relação à criança. Dedicando-se ao aprimoramento, por meio de todo tipo de avanços que se possa conseguir e com os melhores instrumentos disponíveis, das condições da infância com vistas ao cumprimento mais completo possível do ideal. Ou, num corte fundamental, acolhendo e dando voz às incidências que revelam que algo nesta pretensão não se realiza e escapa. Foi esta última posição que coube ao psicanalista: recolher, revelar, tirar as conseqüências da presença do corpo estranho que é o desejo no campo do sujeito – aquilo de nós que não sabemos, não podemos saber inteiramente, que derroga, que faz limite aos ideais.

A criança é para a psicanálise, ou ao menos foi para Freud, este ponto a partir do qual ele pôde iniciar o processo de desmontagem de nossas pretensões de autonomia e individualismo, que eram vigentes antes dele e ainda hoje pré-freudianas em seu fundamento. O que identificamos comumente como infantil, e eventualmente, a permanência da criança no homem, é talvez uma forma de tomar este resto que sempre escapa de nossas expectativas e intenções. Resto que queremos e tendemos a recalcar, que de maneira nenhuma se conforma ao ideal. Indo um pouco mais longe pode-se dizer que a criança é o limite daquilo que Freud encontrou nas análises, fosse qual fosse o momento cronológico-biográfico do analisante. Um limite, um significante, diríamos, que em psicanálise designa o lugar das primeiras identificações do sujeito para sua constituição.

Quando, portanto, a psicanálise faz falar o sujeito, tenha ele que idade for, é para levá-lo a falar da criança que ele foi e é. Não a criança ideal, mas a criança depositária de um desejo marcado pelas vicissitudes próprias dos encontros e desencontros, da incompletude, das insistências, da falta que ela experimenta na relação ao Outro. O psicanalista por sua vez, também no tratamento psicanalítico com crianças, não visa um bem fechado em si mesmo, absoluto, de antemão; nem tampouco o bom senso, a solução, o desenvolvimento adequado, a normatização – mesmo que estes interesses não estejam ausentes. A psicanálise não tem uma visão de mundo alternativa a propor, nenhuma panacéia que resolveria por um código geral os males do sujeito. O que sustenta a operação do analista com a criança é uma clínica efetiva, que aponta para o caso a caso e está concernida em atestar cada sujeito em sua singularidade e na singularidade das circunstancias em que ele se constitui e se manifesta. Numa análise o que está em jogo não é restituir a criança como ideal perfeito dos pais e adultos que demandam por ela, mas sim, uma possível realização do sujeito a partir da instancia do desejo, em toda sua complexidade.

Como se vê, a questão inicial não é tão simples e só pode ser enfrentada com fecundidade se aceitamos seu ponto de impossibilidade interna, vale dizer, estrutural. Este ponto de impossibilidade diz respeito a como um tratamento como a psicanálise, baseado fundamentalmente na questão de uma posição ética frente ao desejo, e que supõe portanto a responsabilidade e implicação dos sujeitos naquilo que sofrem; pode ser oferecido à criança que não é, não pode ser ainda, propriamente responsável. O interessante é que esta interrogação se apresenta geralmente acompanhada por outra, aparentemente independente, que diz respeito à questão de como a linguagem da criança pode franquear o aceso a esta prática, a esta experiência que é a psicanálise. Onde se trata de lidar com o real – o real enquanto impossível de suportar, que está no núcleo dos sintomas – através do simbólico configurado como dimensão da palavra. Em ambos os casos o que se discute é como a criança pode alcançar a experiência.

Lacan, ele mesmo, destacou a posição de objeto da criança como uma das suas possibilidades em relação ao Outro, introduzindo a idéia de que o primeiro estado do sujeito é ser falado no discurso do Outro. Outro que o reconhece e acolhe, que lhe dá lugar – ou não. Porém foi o mesmo Lacan quem apontou para o estatuto plenamente simbólico da relação da criança em sua relação com o Outro. Decidindo-se por um retorno a Freud, na contramão do desvio que ceifava da psicanálise a referência à função e ao campo da linguagem, Lacan destacou as “tentativas e tentações” de concepção de uma estruturação pré-verbal da experiência, provenientes da psicanálise com crianças, entre as armadilhas geradoras deste desvio (Lacan 1953:242). Mostrando inclusive que o interesse e o fascínio que alimentamos por vezes pela realidade supostamente “mais arcaica” do psiquismo infantil implicam um desconhecimento sintomático que nos isenta de responsabilidade com relação ao sujeito. Ele nos retira da nossa práxis com relação à criança e nos lança no ideal. Na tentação de tocar, pela interpretação, uma anterioridade pré-verbal que modelaria todas as relações do sujeito com o mundo. Nesta posição abrimos mão e excluímos a participação do Outro – do Outro da cultura e do Outro que somos, cada um, para a criança.

Por isso a psicanálise, ao contrário, vem, com Lacan afirmar na criança, por menor que seja, ainda antes do uso da palavra, a dimensão de uma experiência subjetiva por relação à linguagem uma vez que a criança experimenta o que nós – o mundo, a linguagem, cada um de nós – lhe dizemos, com ou sem palavras. Não há realidade pré-discursiva. Na efetividade de um tratamento o que a criança apresenta – ou seja, o que uma criança apresenta para a psicanálise e não do ponto de vista biológico ou sociológico – é sobretudo uma forma de estruturação e portanto de configuração clínica das questões fundamentais humanas, questões sobre a relação com o Outro e suas leis. Mais isso, que etapas de desenvolvimento.

O que escutamos quando escutamos uma criança – seja através da interação verbal, seja pelo desenho, pelo jogo – não é a infância ideal, intocada mas a criança que em seus sintomas testemunha o atravessamento simbólico que dá margem à constituição de um desejo com base no qual ela é concebida e tomada. Desejo que a retira da condição de infans para situá-la como sujeito dividido e enredado pela linguagem. Sujeito: não ente, coisa, objeto. Sujeito que é ele mesmo a um só tempo, tomada de posição e efeito das posições tomadas. Sujeito cujo único ser é seu ser de linguagem (Rocha 1996).

Por tudo isto considera-se a importância da posição de objeto da criança na estrutura, na família, na coletividade, mas não para fazer disso um elemento que dê conta de tudo o que está envolvido na chegada de cada criança a análise; não para dispensar o valor da palavra da criança. Dar a palavra – de que modo seja possível – para a criança, não contentar-se em falar sobre ela, em inventariar as suas circunstâncias e traumatismos; recusar tomar diante dela a posição modelar que incita à identificação. Eis alguns dos princípios da psicanálise para não se perder na justificação de uma psicanálise especial para crianças, sejam estas muito pequenas ou estejam marcadas pelos chamados casos graves ou difíceis. O que importa é em cada caso perceber como as questões fundamentais da existência se colocam para aquele sujeito em particular, ver como comparecem no campo da prática clínica com crianças todos os elementos fundamentais da clínica psicanalítica.

Enfim a responsabilidade que cabe ao psicanalista que dirige o tratamento de uma criança é também aquilo que ele pode oferecer: devolver à criança a função e o campo da palavra e da linguagem em sua vida e talvez na daqueles que se responsabilizam por ela. Nisto o desejo do analista é decisivo como ponto de Arquimedes a partir do qual sustentar, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade da incidência da palavra e suas leis no campo do sujeito – fragilidade que nos convoca ao trabalho que é o desejo e força que permite dar lugar a um sujeito que não é mais um marionete capturado na onipotência do Outro.

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Referências Bibliográficas:

LACAN, J. (1953) "Fonction entre champ de la parole entre du language em psychanalyse”. Em: Écrits. Paris: Seuil, 1966.
MELMAN, C. (1986) “Sobre a infância do sintoma”. Em: Neurose infantil versus neurose da criança. Salvador: Agalma, 1997.
ROCHA, A.C.(1996) "O impossível do desejo e o desejo do impossível". Em: Ética, psicanálise e sua transmissão. Petrópolis: Vozes.