quarta-feira, 20 de agosto de 2014

XX Jornada Freud Lacaniana 2014

XX JORNADA FREUD LACANIANA
17 e 18 de outubro de 2014
   CARTA CONVITE 
É com imenso prazer que lhes convidamos para participar da XX Jornada Freud Lacaniana/Ano 2014. Essa Jornada acontece em Recife/PE desde 1992. O evento reúne profissionais e estudantes com um objetivo bem específico. A discussão da Psicanálise. Este ano, por iniciativa coletiva, vamos agregar instituições que trabalham também com diferentes abordagens e aderiram à ideia de juntos produzirmos um evento que possa enriquecer e ampliar nossos laços.
Creditamos nas interlocuções, várias linhas de pensamento, para abrir espaço de trocas, gerando circulação e movimento entre outros lugares de produção psicanalítica. Exaltamos que nesses vínculos surgem a possibilidade de novas direções às nossas elaborações teóricas, bem como às nossas práticas clínicas.
Seu funcionamento, já conhecido por muitos de nós, é promovido por uma comissão organizadora composta por um representante de cada instituição convocante, com a finalidade de organizar um encontro profícuo e consistente. Cada inscrito pode participar com exposição de trabalhos para serem debatidos. Cada trabalho é apresentado em nome próprio. Ainda faz parte de seu dispositivo, as apresentações usufruírem tempo igual para todos, sendo a condição para exposição de texto atrelada à inscrição na Jornada.
É apostando na transmissão da psicanálise e no compromisso para com ela, que colocamos abaixo as informações e esperamos seu contato para inscrição. Contamos com sua presença, sem a qual não teremos momentos tão exitosos.
Estamos à disposição para quaisquer esclarecimentos.                                                                                            
Comissão organizadora /2014 
Local: Vila Rica Hotel – Av. Boa Viagem, 4308, Boa Viagem, Recife/PE.

Inscrições: Profissionais: R$ 200.00 - Estudantes: R$ 100,00 (valores que incluem um almoço no Hotel)

Apresentação de trabalho: O título do texto deve ser enviado para o e-mail do evento até 15 de setembro.

Dados para depósito bancário: Caixa Econômica Federal – Agência 0943 – Conta Poupança 01300002837-0 – Nome: Yáskara Maia (enviar por e-mail comprovante de pagamento).

Instituições convocantes: Circulo Psicanalítico de Pernambuco (CPP), Forum de Psicanálise do Recife, Intersecção Psicanalítica do Brasil (IPB), Toro de Psicanálise, Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise.

Comissão organizadora: Auxiliadora Guerra: (81)32422352; João Villacorta: (81)91545507; Rachel Rangel: (81) 86636485; Yara Amorim: (82)93068946Yáskara Maia: (81)91724224.


No CEF Recife, Fórum de Formação do Analista

Fórum de Formação do Analista

Dia 22 de agosto (sexta-feira) às 18:00 h

No próximo dia 22/8 continuaremos a discussão do texto de Philippe Julien, mais especificamente o capítulo 1- Um Procedimento Cartesiano (pag.87), da quarta parte - Em direção ao Real.


Textos de apoio:
J. Philippe. O Retorno a Freud de Jacques Lacan - quarta parte

Responsáveis:  Maria Lúcia Queiroz e Lúcia Buonora - Psicanalistas

Valor: R$ 20,00
Membros do CEF e participantes de grupos de estudos não se incluem entre os pagantes.

A Coordenação


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Participe do Blog!



PROGRAMA DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

DANIELLE MACIEL
PSICÓLOGA CRP:02/17647
PROGRAMA DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
A orientação vocacional pode ser definida como um processo de auto-conhecimento e conhecimento
do mercado e das profissões, com o objetivo de auxiliar o estudante na escolha de uma profissão
futura de acordo com o seu perfil profissional.
Ψ – A quem se destina
A orientação vocacional, de uma maneira geral, destina-se aos estudantes do 9º Ano do ensino
fundamental que estão a iniciar a procura de uma profissão através do ingresso num curso superior.
Ψ - Quais os objetivos
A orientação vocacional procura, através de uma série de técnicas e testes, ajudar o estudante a:
1. Conhecer melhor as profissões e o mercado de trabalho;
2. Identificar as forças internas que orientam sua escolha profissional;
3. Refletir sobre sua problemática profissional e procurar caminhos para sua elaboração.
Ψ - Como funciona o processo de Orientação Profissional?
A orientação profissional ocorre em média de 10 sessões, podendo ser mais ou menos , dependendo
do desenrolar do processo.
Na primeira etapa foca-se no autoconhecimento e na segunda no conhecimento do mercado de
trabalho. Para isso, utilizam-se instrumentos psicológicos, como testes, questionários, escalas,
vivencias, reflexões, jogos dramáticos e pesquisa de campo. Espera-se assim que por meio da
Orientação Profissional o individuo possa assumir o papel de agente capaz de tomar as ações
seguras e significativas para obter os seus objetivos de vida.
Ψ -Como o processo de OP é realizado?
O processo possui dois focos básicos, o autoconhecimento e o conhecimento do mercado de
trabalho, dentro destes estão divididas as sessões:
1 – Sensibilização para a questão de escolha e Entrevistas Iniciais;
2 – Questionário de situação profissional;
3 – Escala de maturidade para a escolha profissional;
4 - Identidade vocacional e Autoconceito;
5 - Interesses e Aptidões;
6 – Vínculo com o trabalho e o seu significado;
7 – Critérios para a escolha profissional;
8 – Informação ocupacional na OP e Projeto de Vida.
Ligue e agende uma entrevista inicial. Oferecemos também o programa em grupo para as escolas.
(81) 9545-5752 psicologadaniellemaciel@gmail.com daniellemacielpsicologa/facebook.com

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Curso sobre Psicopatologias da Infância

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A Abordagem Psicanalítica da Psicopatologia de Infância e a Questão do Diagnóstico

Leda Mariza Fischer Bernardino*

As psicopatologias, na concepção psicanalítica, se articulam à estruturação subjetiva. Considerando a infância como tempo de desenvolvimento e a série de operações psíquicas que marcarão a relação do sujeito que surgirá com o Outro, há um caráter inconclusivo no diagnóstico neste momento. Entretanto, é importante a formulação de hipóteses sobre o encaminhamento do processo de constituição subjetiva da criança. A detecção de riscos psíquicos em crianças pequenas permite a indicação de tratamento, cuja precocidade é extremamente relevante para os efeitos esperados e para o conjunto do desenvolvimento da criança.


*Psicanalista, analista membro da associação psicanalítica de Curitiba, membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, pós-doutora em Tratamento e Prevenção Psicológica (Université Paris 7), pesquisadora do LEPSI (USP) e da UFPR, autora, entre outros de As psicoses não decididas na infância: um estudo psicanalítico.


Data: 12/09/2014, das 19:00h às 21:00h
         13/09/2014, das 09:00h às 12:00h / 14:00h às 17:00h
Local:       Auditório Executivo da FACHO

Inscrições: FACHO (81-34294100; r.211) e CEF (81-32681812)
                   Profissionais e Membros do CEF: R$ 160,00
                   Estudantes de graduação: R$ 85,00




Seminário Internacional sobre Autismo


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Uma revisão sobre a Psicanálise Infantil

As particularidades da clínica com crianças inquirem os conhecimentos já organizados sobre os sintomas e as possibilidades de abordagem psicanalítica. Quando se trata de crianças, a clínica se constitui no entrecruzamento de subjetividades, imprimindo impasses e possibilidades para o paciente, seus pais e o analista ( TEIXEIRA, 2006).
Alguns poucos analistas que questionam a possibilidade da criança desfrutar de uma análise nos mesmos moldes de um paciente adulto. No entanto, é importante pensar como a clínica psicanalítica direcionada à infância, principalmente à primeira infância, nos confronta com uma mudança de paradigma: de uma clínica baseada no significante e na linguagem em sua dimensão verbal, para uma clínica voltada para a idéia de construção e de contenção/continente (ZORNIG, 2008).
Sabemos que não existem teorias específicas para analisar o discurso da criança. Freud se refere ao jogo da criança em vários trabalhos, onde se refere a essa atividade, como um discurso onde o inconsciente produz seus efeitos. Trata-se então, não de criar técnicas, mas de escutar esse discurso característico que a criança sustenta nas formações do inconsciente. À medida que a criança começou a brinca no consultório, foi preciso criar técnicas como ludoterapias, dramatizações, etc., para chegar ao seu inconsciente. Esta mudança ao nível da técnica levou também a uma mudança na teoria, chegando ao ponto de se desconhecer a paternidade freudiana que caracteriza a psicanálise como tal (VIDAL, s.d.).
O objetivo desse trabalho é demonstrar a importância do tratamento psicoterapêutico infantil sob a ótica da Psicanálise, analisando aspectos da teoria psicanalítica sobre a atividade lúdica na infância, o envolvimento dos pais nesse processo, destacando ainda alguns importantes referenciais teóricos.

1 Panorama Histórico da Psicanálise Infantil

A psicanálise de criança início-se num momento em que a comunidade analítica discutia a formação do analista e tentava institucionalizar essa formação. Nos anos pós-guerra, a preocupação com o mau uso da psicanálise e o temor do charlatanismo colaborou para a controvérsia sobre a conveniência ou não de autorizar os não médicos a este exercício (CAMAROTTI, 2010).
A primeira análise realizada com uma criança foi a do Pequeno Hans (Sigmund Freud, em 1909) e teve grande importância por demonstrar que os métodos psicanalíticos podiam ser aplicados também às crianças. Naquela ocasião, Freud já mencionava que a criança é psicologicamente diferente do adulto, não possuindo ainda um Superego estruturado. Para ele, as resistências internas que combatemos no adulto ficam substituídas na criança por dificuldades externas. Mas, o interesse pela psicoterapia infantil só iria surgir, efetivamente, com os pós-freudianos (SILVA E SANTOS, 2008).
A partir desse momento, vale destacar que o interesse pela psicanálise infantil só surgiria efetivamente, com os pós-freudianos. Freud proporcionou modificações às noções já existentes acerca da criança e da infância e, em 1933, retomou os debates sobre a expansão do campo teórico e clínico da psicanálise para a prática analítica com as crianças, época em que, Anna Freud, Melanie Klein e Sophie Morgentern, já haviam publicado seus primeiros trabalhos sobre o tema, partindo do caminho por ele aberto, embora, resultando em teorias diversas e até mesmo opostas em relação à posição da criança como sujeito inconsciente (SILVA E SANTOS, 2008).
Segundo Priszkulnik (1995), a descoberta da sexualidade infantil, sem indícios de degenerescência ou de devassidão prematura ou como curiosa anomalia da natureza, provoca, então, protestos e espanto na sociedade conservadora do final do século XIX, visto que nessa época a criança era tida como um símbolo de pureza, um ser assexuado. Assim, para a desordem da comunidade científica e da moralidade cristã-vitoriana de então, a sagrada associação entre a criança e a inocência fica abalada.
De acordo com Camarotti (2010), a psicanálise de criança originou-se com contorno marginal e em busca de validação. Foi devido ao fato de ter sido criada por duas mulheres, Anna Freud e Melanie Klein, ambas protagonizando uma concorrência fraterna em busca de aprovação junto ao pai da psicanálise? Ou foi devido ao fato de ter surgido em meio a segredos e de forma incestuosa, quando sabemos que Anna Freud foi analisada pelo pai, que Klein analisou o próprio filho, que Abraham analisou a sua filha Hilda, e Jung a sua "pequena Agathli"? Além de que a primeira análise infantil, a do "pequeno Hans", foi realizada pelo próprio pai, Max Graf.
Poderiam os primórdios da psicanálise de criança ser considerados como construção conjunta entre pais e filhos, já que foram as crianças que forneceram inocentemente material (sonhos, jogos, falas) aos seus pais, ávidos em transmitir suas observações a Freud? O mesmo Freud que disse a Emma Jung não ter tempo de analisar os sonhos dos seus filhos, pois precisava ganhar dinheiro para que esses continuassem a sonhar (CAMAROTTI, 2010).

2 As Duas Correntes da Psicanálise em Crianças

A técnica em Psicanálise infantil passou por várias transformações ao longo do tempo. Desde o método clínico de Klein e de seus seguidores, foi exacerbada a importância do trabalho extenuante de interpretação em análise de crianças. Tendo em vista à decodificação do significado da brincadeira desenvolvida na sessão analítica, encontramos, atualmente, modelos teóricos que expandem ou que modificam essas abordagens originais (FELICE, 2003).
Se empregarmos esta concepção à clínica psicanalítica com crianças, podemos entender melhor as razões dos notáveis debates entre Anna Freud e Melanie Klein sobre a possibilidade de uma criança transferir ao analista em função do vínculo afetivo a seus objetos fundamentais, já que subjacente a essa discussão encontrava-se uma determinada concepção sobre a estruturação do psiquismo na infância e as relações objetais precoces. Enquanto Anna Freud propunha uma análise baseada na noção de um aparelho psíquico em constituição, Melanie Klein postulava um psiquismo constituído desde os primórdios, privilegiando a atividade fantasmática da criança (ZORNIG, 2008).

2.1 Alguns Conceitos Kleinianos na Psicanálise da Criança

Segundo Oliveira, (2007), uma das principais contribuições da teorização kleiniana são os conceitos de posição esquizoparanóide e posição depressiva. Estes são períodos normais do desenvolvimento que perpassam a vida de todas as crianças, tais como as fases do desenvolvimento psicossexual criadas por Freud. Contudo, são mais maleáveis do que estas fases, devido ao fato de instalarem–se por necessidade, e não por maturação biológica (embora a autora não deixe de considerar as fases da teoria freudiana a respeito do desenvolvimento infanto–juvenil).
Segundo Simon (1986), o bebê nasce imerso na posição esquizoparanóide, cujas principais características são: a fragmentação do ego; a divisão do objeto externo (a mãe), ou mais particularmente de seu seio, já que este é o primeiro órgão com o qual a criança estabelece contato, em seio bom e seio mau – o primeiro é aquele que a gratifica infinitamente enquanto o segundo somente lhe provoca frustração – a agressividade e a realização de ataques sádicos dirigidos à figura materna.
Outro conceito importante na clínica de Klein foi o de Fantasia. De acordo com Klein, a fantasia pode ser considerada uma estrutura através da qual o sujeito se relaciona com os objetos exteriores. Durante o período inicial da vida, a mente infantil funciona basicamente através de fantasia inconsciente, a qual suplementa o pensamento racional enquanto este não estiver desenvolvido. As fantasias são inatas no sujeito, uma vez que são as representantes dos instintos, tanto os libidinais quanto os agressivos, os quais agem na vida desde o nascimento. Elas apresentam componentes somáticos e psíquicos, dando origem a processos pré–conscientes e conscientes, e acabam por determinar, desta forma, a personalidade. Pode–se concluir que as fantasias são a forma de funcionamento mental primária, de extrema importância neste período inicial da vida (OLIVEIRA, 2007).
Ainda em Oliveira (2007), Klein em sua clínica, percebe que as crianças têm uma imagem de mãe dotada de uma imensa maldade, o que, na maioria das vezes, não corresponde à mãe real. Daí surgiu o conceito de fantasia kleiniano, a partir da hipótese de que as crianças estão lidando com uma deformação da mãe verdadeira, a qual é criada em sua  mente de maneira fantasmática. Melanie Klein fundamentou toda sua teoria evidenciando as fantasias inconscientes, presentes nas relações objetais primitivas.

2.2 Conceitos de Ana Freud na Psicanálise da Criança

Ana Freud considerava as crianças muito frágeis para submeterem-se a uma análise e não acreditava que elas pudessem desenvolver a transferência e nem tão pouco associar livremente, devido a sua imaturidade psíquica. E dizia que o Complexo de Édipo não deveria ser examinado muito profundamente em função da imaturidade do Superego. E, também com base nesse raciocínio, ela defendia que a abordagem psicanalítica deveria vir associada a uma ação educativa (pedagogia psicanalítica) (SILVA & SANTOS, 2008).
Segundo Silva e Santos (2008), Ana Freud afirma que a análise do adulto tropeça com dificuldades maiores já que diz respeito a objetos amorosos mais arcaicos e mais importantes do individuo (os seus pais, que introjetou por meio da identificação e cuja lembrança é protegida pela piedade filial). Enquanto que nos casos de crianças os conflitos envolvem pessoas vivas que existem no mundo exterior e que ainda não se encontram estabelecidas na memória. Anna Freud dizia que o analista de crianças além do treinamento analítico propriamente dito, também deveria possuir um segundo componente: o conhecimento pedagógico.
Ela adverte que o analista deve se aplicar em colocar-se no lugar do Ego-Ideal da criança por toda a duração da análise; não deve iniciar seu trabalho de análise até que se tenha assegurado de que a criança esteja desejosa em seguir seu comando. Segundo ela, o analista precisa ter habilidade para conduzir o relacionamento entre o Ego da criança e os seus instintos e, esclarece que o Superego da criança é fraco; visto que, as exigências do Superego assim como a neurose acham-se em dependência do mundo exterior. Explica ainda, que a criança é incapaz de controlar os instintos liberados e que o analista precisa dirigi-los. Posteriormente Anna Freud reconheceu as descobertas de Melanie Klein, em que esta comprovou a existência de um campo transferencial na análise de crianças e estabeleceu a correspondência entre a associação livre e as técnicas de jogo (SILVA & SANTOS, 2008).

3 A Psicanálise da Criança

3.1 O Brincar na Psicanálise de Crianças

O “brincar” tem um papel muito importante na análise de crianças, e pode ser considerado um processo análogo as associações livres que ocorrem na análise dos adultos. A sequência de brincadeiras, sua importância e significados, devem ser observados e analisados atentamente.
Segundo Mrech (1999), um aspecto importante a ser observado é que o brincar da criança não é apenas um ato natural de um determinado momento. Ele traz a história de cada criança, desvendando quais foram os efeitos de linguagem e da fala, sob a forma de uma rede transferencial específica. Para a Psicanálise, não se deve confundir os objetos concretos (brinquedos e jogos), com as suas simbolizações e imagens. Existem diferenças entre a realidade psíquica da criança e a realidade concreta. Para que possamos saber como a criança pensa, o que sente, deseja etc., é preciso que nos guiemos pela sua realidade psíquica, e não pela sua realidade concreta ou por nossa realidade psíquica.
A utilização de atividade lúdica como uma das formas de mostrar os conflitos interiores das crianças foi, sem dúvida, uma das maiores descobertas da Psicanálise. É brincando que a criança revela suas desordens de uma forma muito semelhante que os adultos revelam na fala. No entanto, o brincar e as brincadeiras infantis não podem ser tomados como processos iguais à linguagem e à fala. Eles apresentam uma singularidade típica (MRECH, 1999).
Na brincadeira, o fundamental não é a relação com o objeto, pois ele serve meramente como um mediador entre a realidade e a imaginação. Na brincadeira, o objeto principal é representar o papel, “como se” no brincar não existissem regras determinadas. No entanto, a ficção substitui a regra e desempenha a mesma função. Através do brincar (do jogo) a criança sente-se livre para experimentar tudo o que quiser, ela pode ser tudo e nesse faz de conta, ela imita a vida, o amor, as tristezas (MELLO, s.d.).
Ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, angústias e problemas internos, dominando-os por meio da ação. Repete no brinquedo todas as situações excessivas para seu ego fraco e isto lhe permite, devido ao domínio sobre os objetos externos a seu alcance, tornar ativo aquilo que sofreu passivamente, modificar um final que lhe foi penoso, tolerar papéis e situações que seriam proibidas na vida real tanto interna como externamente e também repetir à vontade situações prazerosas (ABERASTURY, 1992, p. 15).

3.1.1 O Brincar Segundo Winnicott

A teoria sobre o brincar concebida por Winnicott originou mudanças significativas no pensamento psicanalítico atual. A relação analítica passou a ser apreciada como a criação de um espaço potencial em que duas pessoas tenham a possibilidade de brincar juntas. Apenas assim, o paciente pode desvendar seu self e desenvolver sua criatividade. O brincar transferido para a situação de análise infantil, no contato entre paciente e analista, constitui-se na principal realização da psicoterapia (FELICE, 2003).
Sua teoria do brincar parte do princípio de que a brincadeira é primária, e não resultado da sublimação dos instintos. É uma maneira fundamental de se viver, que facilita o crescimento e leva aos relacionamentos em grupo. O brincar aparece no contexto da relação mãe-bebê, a qual segue um encadeamento no processo de desenvolvimento. Primeiramente, a mãe é percebida como um objeto subjetivo, isto é, criado pelo bebê. A mãe, sensível e direcionada para as necessidades de seu filho, torna concreto o que ele está pronto para encontrar, possibilitando a experiência da ilusão e de controle onipotente sobre o mundo. Em um segundo estágio, o interjogo entre a realidade psíquica pessoal e a experiência de controle de objetos reais cria um espaço potencial entre a mãe e o bebê, no qual a brincadeira começa (FELICE, 2003).
Winnicott acrescenta que além das significações e sentidos, os brinquedos são também objetos transicionais, isto é, eles se encontram no meio do caminho entre a chamada realidade concreta e a realidade psíquica da criança (MRECH, 1999).

3.1.2 O Brincar Segundo Melaine Klein

Para Melaine Klein, o brincar se transforma no componente essencial da análise de crianças, que possibilita o estabelecimento da transferência em análise. O acesso ao seu inconsciente devia realizar-se através da atividade lúdica que vai pontuando os diferentes tempos na direção da cura. É abordada enquanto conteúdo do inconsciente, pois ela é manifestação do desejo e da fantasia inconsciente. O brincar se torna um painel onde é projetado esse universo fantasmático: fantasmas de destruição e de ataque se articulam com sentimentos de depressão e culpa. A dialética da introjeção-projeção é principalmente assinalada na transferência. Indica os momentos da relação da criança com o analista que, para Melaine Klein, correspondem à primazia de um tipo de fantasia dominante (VIDAL, s.d.).
Melanie Klein aborda a psicanálise para as crianças através da técnica do brincar, que até então não tinha sido estudada. Como ela mesma cita, teve um insight a respeito do desenvolvimento inicial e a interpretação que se pode obter através de observações do brincar das crianças, influenciando também em crianças mais velhas e adultos (CARMINATTI, 2005).
Segundo Melaine Klein (1970), o brincar da criança é diretamente proporcional à associação livre do adulto. Pois o brincar e jogar são formas básicas da comunicação infantil, com as quais as crianças inventam o mundo e elaboram seus aspectos internos e os impactos exercidos pelos outros (mundo externo). As crianças jogam, brincam e desenham, não falam como os adultos, encontram no lúdico a forma preferencial de enunciar o que se encontra no registro do inconsciente. Assim, o jogo não é uma simples brincadeira.
Há nela uma preocupação em compreender o significado que a criança exterioriza em cada jogo e com cada brinquedo:
a criança expressa suas fantasias, seus desejos e suas experiências de um modo simbólico por meio dos brinquedos e jogos. Se desejamos compreender corretamente o jogo da criança em relação com a conduta total durante a sessão de análise, devemos desentranhar o significado de cada símbolo separadamente. O psicanalista deve mostrar repetidamente os diferentes significados que pode ter um simples brinquedo do fragmento de jogo" (VIDAL, s.d.).
Melanie Klein notou que a criança expressava suas fantasias, desejos e experiências simbolicamente no brinquedo e acentuou a importância da caixa de brinquedos. Porém quem realmente introduziu o uso da caixa de brinquedos no setting analítico foi Arminda Aberastury. Para esta autora (1992), a caixa representa o mundo interno da criança, o mundo não verbal, contendo as representações inconscientes e as relações com seus objetos. Para Aberastury o uso da caixa privilegiando o jogo e o brinquedo torna-se valioso porque difere do discurso verbal onde o sujeito tem a possibilidade de modificar o seu discurso através das defesas que se organizam para impedir que venha a tona algo que traga sofrimento (REGHELIN, 2008).

3.1.3 O Brincar em Ana Freud

Anna Freud considera o brincar uma questão secundária no marco de sua teoria e técnica em Psicanálise de Crianças. Sua preocupação é a entrada do pequeno sujeito no dispositivo analítico, a partir de um "treinamento" no qual o analista opera enquanto educador. Quando a criança entra no trabalho de análise, sua técnica consiste na interpretação dos sonhos, dos devaneios e dos desenhos. O brincar e a colocação de brinquedos, fundamentais na teoria kleiniana, são para ela métodos substitutivos e contingentes na análise com uma criança. Ela marca sua discordância do simbolismo que utiliza Melanie Klein com relação ao brincar na sessão. O importante para Anna Freud é o fato da criança estar em transferência, ou seja, numa vinculação tal com o analista que possibilite sua intervenção e a interpretação (VIDAL, s.d.).
Anna Freud entendia o brincar como atividade expressiva e não simbólica (pois o simbólico estava ligado ao reprimido) e Melanie Klein via o brincar como alocução e destinado ao analista, pressupondo diferentes níveis de simbolização conforme idade, nível de funcionamento mental, quantidade e qualidade das angústias da criança (REGHELIN, 2008).

3.2 A Entrevista com os Pais na Clínica Psicanalítica da Criança

A entrevista com os pais representam um lugar crucial para a análise com crianças, pois o que está em jogo é o bom andamento do caso e, para tanto, a transferência dos pais, tanto quanto da criança, é de fundamental importância. É imprescindível escutar os pais na medida em que eles estão implicados nos sintomas do filho, o que não significa fazer o tratamento psicanalítico deles, mas ajudá-los a se situarem em relação à sua própria história.
Se nos orientarmos pelos pensamentos de Anna Freud, que enfatiza a situação externa e a realidade precisamos ter entrevistas com os pais para colher informações e, se necessário, orientá-los na educação do filho, ou seja, interferindo na realidade da vida em comum. Se nos basearmos pelos pressupostos de Melanie Klein, que confere uma importância quase que exclusiva aos processos internos, ao tratarmos a criança pela Psicanálise devemos se necessário, encaminhar os pais a outro analista para entrevistas de orientação (PRISZKULNIK, 1995).
As entrevistas de orientação de pais colocam o analista também como educador e é impossível analisar e educar ao mesmo tempo; neste sentido, Melanie Klein tem razão em não receber os pais e encaminhá-los a outro analista Mas as entrevistas não precisam ser de orientação, podem ter o objetivo de ajudar os pais a se re-situarem diante das dificuldades do filho e da própria vida (PRISZKULNIK, 1995).

Conclusão

A clínica psicanalítica com crianças é uma prática intrigante, onde o recurso lúdico torna possível o estabelecimento de um diálogo terapêutico, pautado na necessidade de refletir não apenas nas palavras da criança, mas os sentimentos que estão além destas.  Algumas questões emergem constantemente em torno da participação dos pais no trabalho clínico desde a primeira entrevista onde se percebe a sua relevância desde o inicio. O importante é que cada terapeuta assuma uma postura coerente à sua bagagem teórica e escolha um manejo técnico o mais afim possível aos seus traços pessoais e subjetivos. A multiplicidade de referenciais teóricos e de técnicas exige uma formação sólida, que deve estar vinculada às questões éticas, onde deveria estar pautada a disciplina pessoal do analista.





sábado, 5 de abril de 2014

Página no Facebook

Visitem minha página no facebook e encontrem lá divulgação de eventos e textos interessantes da área de psicologia e psicanálise.

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terça-feira, 11 de março de 2014

Danielle Maciel Psicóloga e Psicanalista
Psicoterapia
Em muitos momentos de nossas vidas nos deparamos com situações difíceis que não damos conta sozinhos. Nessas ho-ras buscamos ajuda, e a Psicoterapia pode ser uma delas.
Durante o atendimento, a pessoa encontra um lugar confiá-vel, seguro e acolhedor para falar de suas questões, favore-cendo o autoconhecimento e a possibilidade de mudança ao fazer escolhas mais saudáveis para si.
A ajuda de um psicólogo pode ser essencial no processo de autoconhecimento ou de enfrentamento de momentos de crise. Marque uma consulta de avaliação, invista em você!
Serviços oferecidos:
 Psicoterapia para crianças, adolescentes e adultos
 Psicanálise
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 Ludoterapia
 Orientação Vocacional e Profissional
 Atendimento a dependentes químicos, portadores de necessidades especiais, autistas, pacientes psiquiá-tricos
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(81) 9545-5752 Tim
(81) 8989-3638 Claro
Email: daniellebmst@gmail.com
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www.daniellemacielpsicologa.blogspot.com.br
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Próximo ao Shopping Center Recife
Boa Viagem

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014




Texto muito bom da Psicanalista Luiza Bradley Araújo

O MAIS GOZAR NA TOXICOMANIA
Luiza Bradley Araújo1


Gostaria de dizer que esse trabalho eu apresentei no I Congresso Nacional de
Psicanálise, realizado pela Universidade Federal do Ceará, em maio de 2001.
Foi o resultado do trabalho do DEA que fiz na França e continua como parte de
minha pesquisa do doutorado num contínuo caminhar.

Plus-de jouir, mais-de-gozar ou mais gozar?

Segundo o dicionário de Psicanálise Larousse, sob a direção T de Chemama,
plus-de-jouir é um neologismo criado por Lacan “para designar por homologia com a
mais-valia, a função estrutural à qual se reduziria geralmente o gozo e que constitui um
dos modos de apresentação do objeto Ta.”
Pensamos que por se tratar de um neologismo, em nossa língua portuguesa, seria
mais correto tratarmos por mais gozar, visto que não usamos esse “de”, por exemplo,
para falarmos da mais valia e que esse de não altera em nada o sentido na língua
portuguesa.
Lacan, no Seminário “De um Outro ao outro”, em 13 de novembro de1968, diz
que vai introduzir a propósito do objeto a, o lugar onde iremos situar sua função
essencial. “É no discurso sobre a função da renúncia ao gozo que se introduz o termo do
objeto a.”
Lacan chama atenção para o lugar no qual Marx situa o trabalho. Não que o
trabalho seja uma coisa nova, mas que haja um mercado de trabalho; que ele seja
comprado. É isso que vai permitir a elaboração da mais-valia. O trabalho não era
novidade na produção de mercadoria como, também, não era novidade a renúncia ao
gozo. O novo é haver um discurso que articule a renúncia e que faça aparecer a função
do mais gozar, porque é aí que se encontra a essência do discurso analítico. Essa função
aparece pelo fato do discurso ser um efeito dele mesmo, e vem demonstrar que é pela
renúncia ao gozo que ele surge. O discurso detém os meios de gozar enquanto que ele
implica o sujeito. É importante supor que no campo do Outro exista esse mercado.
Estranha forma de inaugurar o “mercado” do gozo no campo do discurso.
A produção do objeto a, se dá em torno do mais gozar.
Chemama, em seu texto “Um sujeito para o objeto” de 1997, no livro Goza:
capitalismo, globalização e psicanálise de Goldenberg, faz referência ao discurso do
Mestre e diz que a disjunção entre S/ e a, pode servir num segundo tempo de introdução
à questão da constituição do sujeito. O ser humano porque fala, não tem acesso direto a
seus objetos, encontra sua satisfação na própria cadeia significante através dos sonhos,
atos falhos, lapsos, etc.. Ele continua, dizendo que há uma segunda leitura essencial a
ser feita :” um sujeito, barrado pelo fato de que fala, vê-se representar por um
significante junto a outro significante, o que não acontece sem a queda de um objeto, o
objeto a”.
É a castração que organiza o discurso do mestre, tanto na realidade psíquica
quanto na realidade social. Lacan , fala sobre a produção da mais valia a partir do
discurso do mestre. Anos depois ele introduz o discurso do capitalista:

Discurso do Mestre Discurso do Capitalista

S1 S2 S/ S2
S/ a S1 a


No discurso do capitalista não há separação entre sujeito barrado e a. É como se
nesse discurso houvesse uma tentativa de evitar qualquer separação entre o sujeito e o
objeto.
Na toxicomania o objeto de gozo não é metaforizado, não é regido pelo
significante, por isso o toxicômano fica escravo da droga, em busca desse mais gozar,
um gozo sem interdito.
Charles Melman, em seu texto “Alcoolismo e toxicomania: uma abordagem
psicanalítica” de 1993, fala que nós vivemos em um tipo de economia que chamamos
“economia de mercado” e que a troca é susceptível de garantir a felicidade, a felicidade
de cada um. Ele lembra ainda que um dos objetivos da economia de mercado é tornar as
pessoas dependentes dos produtos consumidos. É um alerta para a questão do social. A
sociedade capitalista impulsiona o consumismo. Na esfera das relações interpessoais
como na da troca econômica o ideal consumista se prevalece da crença num objeto de
direito sempre disponível, com a condição de poder comprá-lo, num gozo Outro, sem
interdito. É o objeto do toxicômano, as drogas de toda espécie que nossa sociedade
multiplica e diversifica.
Nosso modo de gozar e principalmente o gozo sexual é marcado por uma
insatisfação permanente. Freud no texto “O mal estar na cultura”, de 1929, fala que os
seres humanos estão sempre em busca da felicidade. Sobre as drogas, diz que os
métodos mais interessantes para a prevenção do sofrimento são os que tendem a
influenciar nosso organismo. O método mais eficaz para exercer tal influência é o
método químico da intoxicação. A presença de substâncias estranhas ao corpo, no
sangue e nos tecidos, modifica as condições de vida e provoca as sensações de prazer
imediatas. Essas propriedades dos entorpecentes constituem precisamente seu perigo e
sua nocividade. É na toxicomania e no alcoolismo que podemos observar o gozo
ilimitado, sem barra, na busca de um objeto capaz de assegurar uma felicidade plena. A
droga afasta o gozo sexual, o que não acontece com o alcoolismo. Geralmente, o
toxicômano não se sente incomodado por não experimentar mais desejo ou impulso
sexual. Todos nós temos nossas dependências porém sempre estão no sentido de uma
proteção e conservação de nossa vida, é o que vai diferenciar da dependência tóxica,
química, que levam o alcóolico e o toxicômano a ultrapassarem esse limite.
Lacan diz que o discurso detém os meios de gozar enquanto implica o sujeito.
Marie-Christine Laznik, em seu texto “La mise en place du concept de
jouissance chez Lacan”, 1990, na Revue Française de Psychanalyse, fala que Freud
coloca o gozo em termos pulsionais. É a libido dessa pulsão insatisfeita que dará a
energia do supereu, quanto mais o sujeito renuncia a esse gozo mais terá a libido para
nutrir o seu supereu.
Fica uma questão: no caso da toxicomania será que essa libido da pulsão está
plena, satisfeita, daí não vai energizar o supereu?
Marie Christine Laznik continua dizendo que se o laço social se funda sobre a
renúncia a satisfazer a pulsão, é que esta implica o gozo de objetos que poderiam
pertencer a outros, ou seja os privar de seu gozo. Isso situa o gozo no campo do outro.
Eis o semelhante introduzido na questão do gozo, e com ele a questão da religião, dos
mandamentos, e, portanto, da lei. Ela continua dizendo que tudo isso já está em Freud, e
que ele se interrogou longamente sobre um mandamento da lei de Moisés, aquele que
ordena amar o próximo. Lacan segue o que está implícito em Freud e funda o gozo
sobre a lei.
Lacan chama atenção que se o gozo consiste em forçar a barreira do principio do
prazer, se uma transgressão é necessária para aceder ao gozo, é a letra mesma do
interdito que permite que este gozo encontre um caminho. Marie Christhine, cita, ainda,
a alusão que Lacan fez a uma passagem de São Paulo na Epístola aos Romanos que visa
mesmo esta articulação quando ele diz:” O que quer dizer ? Que a lei é o pecado(desejo)
? Certamente não ! Eu conheci o pecado ( desejo) somente pela lei. E, de fato, eu teria
ignorado a cobiça se a lei não tivesse dito : tu não cobiçarás. Mas, aproveitando a
oportunidade, o pecado(desejo) por meio do( mandamento )princípio produziu em mim
toda espécie de cobiça : porque sem a lei o pecado (desejo) está morto". Lacan cita essa
passagem trocando simplesmente pecado por desejo.

A droga e o ser humano

Michel Tibon-Cornillot, em seu artigo "L’état toxique" na revista "Le trimestre
psicanalytyque" de 1997, fala da dificuldade de definir a droga e diz que tóxicos, 
drogas, psicotrópicos e entorpecentes são termos que designam não apenas os produtos 
e as práticas, mas veiculam, além disso, julgamentos de valor. A própria medicina na 
busca de pesquisar medicamentos que curem as doenças está na origem da descoberta 
das drogas. 
A droga é um objeto fixado ao funcionamento para perverter e levar a desviar de 
sua função inicial. 
O conjunto dos antropólogos, etnobotânicos, neurofisiologistas, todos formados 
na disciplina do espírito cientifico, ligam os rituais do xamanismo a um dos 
movimentos mais fundamentais e mais antigos dos hominídeos no seio das sociedades 
não industriais na sua busca de dar sentido à vida humana. Tibon-Cornillot fala ainda 
que entre esses especialistas das religiões, das culturas ou dos vegetais psicotrópicos, 
devemos deixar a palavra a Peter T. Furst, um dos maiores pesquisadores em  
antropologia dos Índios contemporâneos do México quando afirma que há milenários as 
plantas psicodélicas são a parte integrante da bagagem da humanidade; além disso, elas 
tiveram um lugar de primeira importância na ideologia e na prática religiosa dos povos 
em toda a superfície do planeta e ainda hoje ocupam um lugar em certas culturas 
tradicionais. 
O xamanismo, que deu origem ao nascimento de muitos cultos, entre os quais as 
grandes religiões mundiais, provém do coração do paleolítico. A prática do xamanismo 
remonta há mais ou menos 100.000 anos. 
Em 1884, Freud descobre na planta coca e em seu alcalóide, cocaína, 
propriedades medicamentosas contra as mais diversas doenças. Ele mesmo faz uso da 
cocaína e declara que ela aumentou sua capacidade de energia e de resistência. 
Escreveu um trabalho sobre a droga em julho de 1884 e a forma poética que deu 
a seu texto despertou a curiosidade científica da época. Ele utilizou sempre os mesmos 
termos em seus trabalhos: estimulante, euforia normal, capacidade de trabalho 
aumentada, etc. 
Nessa ocasião, Freud foi reconhecido como pesquisador ficando seu nome 
ligado à cocaína. 
Jean Paul Descombey em seu texto “ “Tâche aveugle et tentation chimique de 
Freud” na revista “Le trimestre psychanalytique” de 1997, diz que Freud fez ao mesmo 
tempo papel de juiz e parte, visto que suas publicações foram baseadas em suas auto 
observações e ele tratou sua “neurastenia” como ele se auto diagnosticava, pela cocaína. 
Os fracassos foram sempre atribuídos à má qualidade do produto, da mesma forma que 
falam os toxicômanos. Ele negava a dependência que a cocaína provoca. 
Convencido, ele tentou influenciar Martha a fazer uso da cocaína alegando que 
iria lhe dar uma boa aparência. O mesmo acontece em relação aos amigos e colegas. 
Von Fleischl, por exemplo, que era admirado e invejado por Freud, recebe a indicação 
do mesmo para o uso da cocaína a fim de curar a sua morfinomania e o resultado é 
desastroso: morre com sofrimentos atrozes. Freud comete muitos erros e lapsos, dom 
por dose, esquece na sua lista de trabalhos o texto onde ele elogia as injeções e coloca 
nessa data seu texto inicial de 1884. Todos os erros quando lhe são assinalados, 
provocam sua irritação e ele não os corrige nas reedições da “Interpretação dos sonhos.” 
Sem criticar a cocaína, ele a recomenda a Fliess que a utiliza contra suas dores, 
as aplica sobre as mucosas nasais depois da cauterização desastrosa dos cornetos de  
Freud, e trata assim suas neuroses nasais reflexas. Juntos, eles curam com cocaína suas 
dores de cabeças respectivas. 
O dom da cocaína dado a Fleiss, resulta na expulsão do maternal em sua auto 
análise. 
Em 1886 a cocaína se apresenta como o terceiro flagelo da humanidade. Nessa 
época o uso da coca nos E.U. era corrente e incontrolável até sua interdição em 1906. 
 
O humor e a toxicomania 
 
O bom humor, de origem endógena ou tóxica, diminui as forças de inibição, a 
crítica em particular, e torna por isso, de novo abordáveis as fontes de prazer, onde a 
repressão fechava o acesso. É importante notar como a exaltação do humor nos torna 
pouco exigentes em relação à qualidade de espírito. É que o humor completa o espírito 
assim como o espírito deve se esforçar para completar o humor que oferece as 
possibilidades de gozo habitualmente inibidas e entre estas o prazer do absurdo. 
No texto « O Humor » de 1927, Freud diz que o humor tem algo de liberador e 
possui também o triunfo do narcisismo, afirmando portanto a invulnerabilidade do ego. 
O ego se recusa a sofrer por conta das provocações da realidade. Ao contrário, faz dos 
traumas do mundo externo ocasiões para obter prazer. Essa propriedade constitui um 
aspecto fundamental do humor. O humor é rebelde. Podemos observar que as duas 
principais características do humor : demência da realidade, afirmação do princípio do 
prazer, aproximam o humor dos processos regressivos ou reativos que tanto nos atraem 
na psicopatologia. 
Enquanto que meio de defesa contra a dor, ele se coloca na grande série dos 
métodos que a vida psíquica do homem tem construído visando se desviar do 
constrangimento da dor, série que se abre para a neurose e a loucura e abraça 
igualmente a embriaguez, a auto-absorção, o êxtase. O humor deve a essa relação uma 
dignidade que falta totalmente, por exemplo, aos chistes, porque esses têm 
simplesmente por objetivo, obterem uma produção de prazer, ou essa produção, ser 
colocada a serviço da agressão. 
A mudança de humor é uma das maiores atrações que o ser humano encontra no 
álcool e. por isso é tão difícil a maioria das pessoas renunciarem ao alcoolismo. 
 
Alcoolismo e toxicomania 
 
Qual a diferença entre o alcoolismo e a toxicomania? Segundo Charles Melman 
em seu livro “Alcoolismo, delinquência, toxicomania”, de 1992, no alcoolismo o objeto 
almejado nesse gozo infinito, é o falo, e isso podemos constatar na clínica tão falicizada 
do alcoolista. No toxicômano a grande diferença é que não é o objeto fálico que está em 
causa, justamente por isso eles nos parecem tão estranhos e não são bem aceitos pela 
sociedade. O alcoolismo é bem tolerado socialmente, fica sempre no registro da 
patologia, como alguém que não para diante do que faz limite, do que faz barreira. No 
alcoolismo, o falo, é um objeto ao qual são atribuídas qualidades viris, a economia 
psíquica nos é familiar. 
A droga, objeto Real, introduz o Sujeito em um mundo virtual, fora do caráter 
fundamentalmente decepcionante do simbólico. A toxicomania aparece como a pulsão 
interativa à experiência da barra, a droga vem barrar o domínio do desejo do Outro. 
Quando os toxicômanos estão bem drogados eles dizem que estão completamente 
barrados. 
Às vezes as drogas são utilizadas como objeto de adição. Segundo Joyce 
MacDougall o termo adição vem para substituir toxicomania. A autora emprega o termo 
de adição para os casos onde o objeto é percebido como bom e também como o que dá 
sentido à vida. Será utilizado na ilusão de substituir as dificuldades da vida cotidiana. 
Ela nos apresenta algumas hipóteses concernente a solução aditiva à dor mental, 
argumentando por exemplo que a relação mãe-bêbe é decisiva para o modo de 
organização do funcionamento psíquico. Uma mãe, seguindo seus próprios desejos 
inconscientes, pode provocar em seu bêbe uma relação aditiva à sua presença e a seus 
cuidados. A criança não é capaz de desenvolver seus próprios recursos psíquicos diante 
das situações perigosas, ela está na impossibilidade de fazer face aos perigo e por isto 
necessita da presença da mãe. 
Freud, ainda no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” de 1905, fala 
da importância das primeiras relações mãe-bêbe e de como ela se origina dos 
sentimentos dessa mãe com a sua própria sexualidade. É através dessa relação que ela 
vai ensinar seu filho a amar, a ser uma pessoa forte e capaz de enfrentar as dificuldades. 
O excesso de mimo na criança pode torná-la incapaz de lidar com a falta de amor ou 
com uma pequena quantidade dele. O que se passa nessa relação que impossibilita essa 
criança de crescer e enfrentar as dificuldades da vida? 
Bergès e Balbo em seu livro "A criança e a Psicanálise", 1996,dizem que o falo é 
nomeado “significante da falta no Outro” e que em uma apresentação topológica, o 
lugar do Outro encontra-se furado e as bordas que delimitam e formam esse buraco, são 
exatamente o lugar da circulação de objetos e de gozo, que fazem o suporte das trocas 
significantes entre a mãe e o filho. É pelo objeto voz que se pode dizer que a mãe está 
no lugar do Outro. A voz situa-se do lado dos objetos a e também como vetor, pela 
palavra, dos significantes da mãe. A mãe não fala apenas em voz alta mas é por meio da 
voz que ela usa o significante (supereu) que interdita o transbordamento do 
funcionamento, opera como limite ao gozo. “Uma mãe que não se situa senão no dom e 
não na troca,” não pode reduzir o transbordamento de seu filho visto que ela mesma está 
fora da função fálica e por conseguinte fora de sua lei. 
Na toxicomania o gozo está fora. 
 
A toxicomania e o social 
 
As toxicomanias são um sintoma do social? Podemos falar de sintoma social 
enquanto dado que a toxicomania está inscrita, de certa forma sub-jacente, quer dizer 
não explícita, em um discurso dominante de uma sociedade em uma determinada época, 
onde prevalece o ideal consumista, como nos diz Melman? 
Tratando-se de um sintoma, manifestação do inconsciente, é sem dúvida, porque 
esse sintoma vem dizer uma verdade, verdade que nós conhecemos e tem origem no 
mal-estar da cultura. 
No discurso do mestre podemos observar que pelo fato do sujeito ser barrado 
pela fala, ele vê-se representar por um significante junto a outro significante com a 
queda do objeto a. Já no discurso do capitalista parece uma tentativa de Lacan dar conta 
desse capitalismo contemporâneo. Ao contrário do discurso do mestre, não há barra 
entre S/ e a, é como se evitasse qualquer separação entre o sujeito e o objeto. 
Será que o uso de drogas está ligado à confrontação entre dois gozos, um gozo 
confrontado à castração, fálico, limitado e outro gozo que Lacan descreve como gozo 
feminino, que ultrapassa os limites, conduz ao delírio, à ilusão, à morte?
 
Lacan, em 1946, no texto "Propósitos sobre a causalidade psíquica", nos 
Escritos, nos fala de como Freud foi brilhante tendo a intuição de notar a importância 
psíquica dos primeiros jogos das crianças, esconde-esconde, etc. nesses jogos Freud cita 
o exemplo do Fort-Da. Ninguém podia imaginar a importância de seu caráter interativo, 
da repetição, em relação a toda separação do objeto amado, incluindo o desmame. Esse 
processo vai estruturar todo o desenvolvimento psíquico, com a possibilidade de 
renúncia. No final desse desenvolvimento nós encontramos a ligação do Eu (Moi) 
primordial, essencialmente alienado, e o sacrifício primitivo essencialmente suicida, 
quer dizer a estrutura fundamental da loucura. Essa discordância entre o Eu (Moi) e o 
ser , será o que vai dar o tom fundamental ao longo das fases da história psíquica, onde 
a função será a resolução do desenvolvimento. Toda resolução dessa discordância terá 
um eco nas profundezas do imaginário da agressão suicida narcísica. Rapidamente essa 
miragem que acontece, por exemplo, na intoxicação orgânica, pode representar o papel 
de uma aparente liberdade. 
Lacan, no Seminário de 13 de maio de 1959 sobre "O desejo e sua 
interpretação", diz que a coisa freudiana é o desejo e que o desejo nós não podemos 
considerar como normalizado, reduzido, ao contrário o desejo é agitado, atormentado. 
Após a articulação analítica feita por Freud, o desejo se apresenta com as características 
de Lust. Em alemão essa palavra conserva toda sua ambivalência de prazer e desejo. 
Lacan fala também da questão do desejo no seminário de 3 de junho de 1959 e enfatiza 
a insatisfação do desejo, que esse mal da cultura é exatamente o mal do desejo. 
 
Conclusão 
 
Podemos concluir que a toxicomania é um modo de vida onde o sujeito foge do 
mundo, ele não suporta mais a irrupção de afetos opressivos e vai em busca desse mais 
gozar, gozo pleno, sem limite e sem barra que o conduz à morte. 
A toxicomania faz parte da tendência psíquica à pulsão de morte, o que está em 
permanente representação nos jogos da criança, o sujeito passa a ser comandado pelo 
objeto, ele não o domina mais. Freud foi muito sábio quando trouxe o For-Da e toda 
importância dos jogos infantis na separação do objeto, isso vale para o desmame. 
Ao nível da subjetividade, ela vai depender do caráter efetivo das operações 
incluídas na castração e ao nível do social, ele passa a reencontrar no real o objeto 
perdido do gozo. 
Trata-se de um sintoma do desejo que vai refletir no sintoma do social. 
Talvez fosse interessante retomarmos um dito de Marx “ a produção não cria 
somente um objeto para o sujeito mas um sujeito para o objeto.” 
Será que tudo isso nos leva a repensar por que a toxicomania ficou ausente 
durante anos da clínica psicanalítica?


1 Psicanalista, Membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil/PE. E-mail: lparaujo@elogica.com.br.

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