quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Corpo Freudiano - Núcleo Goiânia

http://corpofreudianogoiania.blogspot.com.br/

Da História
Em meados de outubro de 2010, um grupo de pessoas provindas de diversas áreas, com percursos diferentes e motivadas a estudar temas centrados na clínica psicanalítica decidiu unir-se em função de um desejo comum: a formação contínua em Psicanálise. Desde o início, houve uma preocupação acerca da identidade do grupo e dos rumos que esta busca por formação seguiria. Este desejo foi endereçado transferencialmente à orientação do psicanalista Marco Antônio Coutinho Jorge e ao Corpo Freudiano Escola de Psicanálise. Instituiu-se, assim, o Núcleo de Goiânia do Corpo Freudiano vinculado à sessão de Fortaleza - CE, sob a direção da psicanalista Laéria Fontenele.

Associados:
Adriana Silveira de Souza
Altair José dos Santos
Carmen Maria Bruder da Fonseca
Danniella Davidson Castro
Elizabeth Cristina Landi
Fernando Pereira Lima
Hélio Henrique Quinan Neiva
José Fabiano Ito
Juliana Borges Naves
Lucas Emmanoel Cardoso de Oliveira
Marcela Toledo França de Almeida
Maria Elisa França Rocha
Mariana Bruder da Fonseca
Maysa Puccinelli
Roberta Freitas Braga Borges

2013! Novo Endereço!!!

Comunico a todos que a partir do dia 04 de fevereiro de 2013 estarei atendendo em Goiânia/GO, onde fixei nova residência no início deste ano.
O novo endereço do consultório é Av. República do Líbano número 2417 sala 101 - Edf. Paládium Center - Setor Oeste
O telefone de contato é (62) 8231-9720
Continuo atendendo crianças, adolescentes e adultos através da Psicanálise.
Atenciosamente,
Danielle B. Maciel de Souza Teixeira

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PSICOLOGIA no BLOG: Relatório ou Laudo psicológico

PSICOLOGIA no BLOG: Relatório ou Laudo psicológico:   O relatório ou laudo psicológico é uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou condições psicológicas e suas determinações histór...

Teste do Desenho: Um Espelho da Alma | Psicologia

Teste do Desenho: Um Espelho da Alma | Psicologia

“A arte é uma mentira que nos permite atingir a verdade”
(PABLO PICASSO, 2004, p.123).
O teste do desenho é mais um dos recursos ao qual o psicológico recorre como auxiliar da sua praxe seja na empresa, indústria, clínica ou escola. Em suas variadas formas, ele está presente nas atividades de seleção, avaliação e ajuda psicológica. Mas, afinal, o que se busca avaliar por meio do desenho nessas situações? Este artigo pretende esclarecer e contextualizar o teste do desenho, na tentativa de dissipar dúvidas que, quase sempre, angustia os candidatos quando submetidos, em particular, a esse tipo de instrumento nos processos seletivos. Campos (1999) destaca que o primeiro trabalho sobre o desenho como fenômeno expressivo, digno de menção, foi realizado em 1887, por Ricci, em Bolonha. O H-T-P (House - casa, Tree - árvore, Person - pessoa), é o teste projetivo mais usado em exame psicotécnico/seleção de pessoal, avaliação clínica, etc. Outros testes, mas apenas por meio da figura humana, a exemplo do Goodenough e do Machover, estão voltados para mensuração da inteligência infantil.
Nesse momento, se faz necessário uma breve descrição do H-T-P. Este teste é administrado à criança acima de 8 anos de idade, adolescente e adulto, cuja aplicação pode ser em nível individual ou em grupo. Seu tempo de realização é livre, mas, geralmente, não ultrapassa a média de 30 a 90 minutos. O material utilizado é papel ofício A-4 (tamanho ideal, não pode ser papel com pauta), lápis grafite n. 2 (de modo geral grafite é mais apropriado para desenhar, facilita o controle do tônus muscular sobre os traços, ao passo que o estereográfico é escorregadio). Os desenhos são feitos à mão livre, ou seja, sem régua ou objetos que sirva a essa função. Embora, o uso da borracha, por parte do aplicador, seja optativo, quase sempre compõe o kit, até porque que a sua utilização, por si, já consiste em motivo de análise. Quando se trata de criança, também se utiliza lápis coloridos, no que se constitui, assim, a Bateria Acromática e Cromática do H-T-P.
Na concepção de Buck (2003), o H-T-P tem como objetivo obter informação sobre como uma pessoa vivencia a sua individualidade em relação aos outros, e em facilitar a projeção de elementos da personalidade e de áreas de conflitos, identificados como o propósito de avaliação ou terapêutica. Ainda para o autor, “os desenhos também estimulam o estabelecimento de interesse, conforto e confiança entre o examinador e o cliente”(p.2). Sua técnica se respalda no “conceito de que os desenhos da figura humana”, bem como os da casa e da árvore, “são úteis para o estudo da personalidade ou como meio de diagnóstico na avaliação clínica, e se fundamenta na teórica na psicologia da imagem de si mesmo, assim como na teoria psicanalítica da projeção” (HARRIS, 1981, p.57- grifo nosso).
Para Levy (apud TRINCA, 1987), o desenho além de projetar a imagem corporal, usualmente compõe uma gama de projeções relacionadas ao autoconceito, a imagem ideal do eu, e as atitudes para com os outros, mesmo com o examinador na situação da testagem. O teste do desenho pode ser uma expressão consciente, como também incluir símbolos disfarçados e fenômenos inconscientes. O desenho da figura humana, segundo Alves (apud WECHSLER, 2003), é uma das medidas mais utilizá-las pelos psicólogos brasileiros, na maioria das vezes com o intuito de avaliação emocional mais do que cognitiva. A frequência da utilização dessa técnica, certamente, se deve a sua composição simples, aparentemente objetiva e de baixo custo financeiro (HUTZ e BANDEIRA apud WECHSLER, 2003).
Ao examinando é solicitado, geralmente, um mínimo de três desenhos, e, em seguida se conduz o Inquérito1. Nessa etapa do Inquérito é extraído o maior número possível de informações e descrições subjetivas que o examinando discorre sobre cada uma das figuras grafadas. Cabe ressaltar que, na clínica, esse manejo é bem mais favorável de se consolidar do que num exame psicotécnico, por se tratar, quase sempre, de grupo. Para Deleuze (1997), o devir não é imaginário, bem como uma vigem não é real, ele faz do mínimo de um trajeto ou da sua imobilidade no mesmo lugar, uma viagem; e é esse percurso que leva o imaginário a um devir. Ao trazer esta afirmativa deleuziana para o contexto desta discussão, diríamos que este teste é o “devir”, e que o examinando é o “imaginário”. Daí a importância do Inquérito. Este, junto ao desenho funda as disposições de acesso ao indivíduo, com significativa e vertical compreensão do seu Eu.
Em outras palavras, é a fala do examinado, no seu sincero propósito de colaborar com o processo, que vai dar mais sentido, e legitimar mais ainda as expressões dos seus desenhos. Afinal, “toda linguagem é uma linguagem exposta à emergência dos efeitos do inconsciente” (NASIO, 1993, p.79). Nessa perspectiva, Deleuze (2006) ressalta que a estrutura se estabelece daquilo que é linguagem, seja ela esotérica ou não-verbal, do mesmo modo em que “só há estrutura do inconsciente à medida que o inconsciente fala e é linguagem” (DELEUZE, 2006, pp.238-9). O desenho é uma outra forma de linguagem por meio do qual o inconsciente também se manifesta. Para Campos (1999) o desenho na vez de técnica projetiva reflete uma impressão do “todo” do indivíduo, como uma “Gestalt”2 organizada, que aparece em toda a sua extensão, pelo olhar do examinador experiente na técnica da interpretação de desenho (grifos da autora).
A autora acredita que tudo esta no desenho, cada linha e parte em suas relações com as outras, o aspecto da sua elaboração com um todo apresenta um efeito unificado, diferente do Rorschach que, além de não apresentar tal clareza de interpretação, necessita de cálculos e escores. Enfim, “a projeção do Desenho é apreendido pelo clínico com uma unidade; o Rorschach deve ser tratado parte por parte” (CAMPOS, 1999, p.27). Por questões inerentes à conduta para com os testes psicológicos, não é possível esmiuçar aqui o significado específico do H-T-P, ou seja, em que se consubstanciam seus itens, isto, se não o invalidaria, entretanto retiraria um pouco do seu impacto avaliativo.
Existem os desenhos projetivos a exemplo do Zulliger (aplicação individual ou coletiva, por meio de slides ou apresentação de 3 cartões ou lâminas), e do Rorschach (aplicação somente individual, mediante a apresentação de 10 cartões ou lâminas), com os seus famosos borrões de tinta que se constituem de estímulos ambíguos. O indivíduo descreve, verbalmente, como os percebe. Feito isso, terá que destacar com lápis de cores variadas nas folhas de localização, uma espécie de marca d`água, os locais nos quais as imagens inspiraram suas respostas. O H-T-P é um teste projetivo, mas gráfico, isto o diferencia destes outros citados.
Os três desenhos do H-T-P trabalham com a mesma deliberação tendo em vista para a interpretação das características da personalidade,estado emocional, transtorno mental3 e outros. Convém salientar que, este teste, apesar da sua relevância tende a denotar aspectos patológicos dos quais quase ninguém escapa. Assim sendo, a praxe recomenda a aplicação de mais de um teste de personalidade quando da avaliação do item específico: Personalidade, e da importância de que o avaliador perceba em quais situações deve relativisar os seus dados qualitativos.
Segundo Van Kolck (1984), o indivíduo ao atender à solicitação - “desenhe uma pessoa” - lança sobre o papel a imagem corporal que possui e que se torna veículo de expressão de sua personalidade (p.14). A autora acrescenta que essa imagem não é apenas consciente, mas também construída como base no corpo do outro, e que não está ligada somente à aparência, mas, em especial, a qualidade da relação. A folha de papel em branco representa o mundo externo do indivíduo que nos desenhos livres é ocupada por objetos diversos sem conexão entre si, ou, pelo contrário, isolados, ou mesmo vazios de conteúdos (PICCOLO, 1995), e, por vezes, porque não, bem distribuídos, relacionados e harmonizados.
O sistema inconsciente, estranhamente, é colocado em dúvida por Nasio (1993), ao mesmo tempo em que indica o suposto lugar do seu trânsito. Para o autor, “se o inconsciente existe, ele só pode existir no interior do campo da psicanálise e, mais precisamente, no interior do campo do tratamento analítico” (p.49). Diríamos que o inconsciente está na vida, no cotidiano das pessoas, e em toda atuação psicológicas, embora umas abordagem priorizem, outras o pretira ou ignore. O inconsciente não é uma invenção de Sigmund Freud, nem patente da psicanálise. Segundo Mueller e Hergenhahn (apud GORSKI, 2005), se atribuem ao filósofo Gottfried W. Leibniz a descoberta do inconsciente muito antes de Freud tocar nessa tecla.
O desenho é uma das mais autênticas expressões do testando, uma vez que capta, em particular, conteúdos inconscientes, sem a sua intervenção. Embora ele possa até intuir que algo do seu interior, do seu Eu, irá torná-lo conhecido, mas não consegue ter o controle sobre o que será exposto. Isto certamente o angustia bem mais, porque o deixa vulnerável. Porém, a intenção não é deixá-lo numa situação desconfortável. Mas, esse teste se estrutura de tal modo que o examinando não consegue manipular informações ao seu favor. Posto que, ele não tem noção de quais aspectos dos desenhos serão considerados favoráveis ao seu caso.
Com exceção de figuras estereotipadas - a exemplo de coqueiro, bananeira e pessoa unidimensional ou feita de “palitos”-, que são impróprias para serem analisados porque não oferecem material suficiente, no teste do desenho não tem resposta certa nem errada. Logo, todos os componentes dos desenhos são analisáveis. A grosso modo, o H-T-P se compara a uma radiografia psíquica. Considerado o fato de que o candidato ou examinado não tem controle sobre os testes, durante o processo de seleção ou avaliação o mais sensato é procurar relaxar (fazer exercícios respiratórios, e manter os pés bem apoiados no chão, sobretudo e de maneira moderada nos momentos antecedem a sua realização, são fundamentais), e ariscar-se em: “Ser a própria pessoa, sem subterfúgios, ou representar algum personagem”, e ser cooperativo às realizações e às solicitações da demanda diagnóstica ou psicométrica. Uma vez que assim proceda, e essa postura é válida para todos os testes, estará facilitando uma melhor denotação do seu potencial, e como consequência um resultado mais satisfatório do seu desempenho.
Para um melhor entendimento do trabalho prático com desenhos, a seguir serão apresentadas quatro vinhetas de dois casos clínicos, e de dois exames psicotécnicos. Um paciente, médico, estava em crise no casamento. A sua esposa se queixava que isto se devia, em grande parte, à relação simbiótica do marido com os parentes, em especial ao seu apego à mãe viúva. O que era, veementemente, negado por ele, que se dizia independente e acostumado a se “virar” sozinho. Portanto, está casado ou solteiro lhe parecia, apesar deste seu segundo matrimônio, ser indiferente, etc. Solicitei que ele desenhasse a sua família.
Depois de relutar, de questionar a utilidade do desenho, meio indisposto do tipo: “Só vou fazer porque não tenho outra alternativa”, com o lápis esgrimiu rápidos golpes no papel. Este gesto que também tem outras significações, aqui se restringirá ao que foi explicitado: Quatro esboços do mesmo tamanho, similares, e um apêndice junto e a esquerda do primeiro esboço da sequência. Cada garatuja como se fossem parênteses sobrepostos. Um menor “a cabeça”, em cima de um outro maior “o tórax”, e a base do primeiro, bastante rechonchuda em relação aos demais, representando os quadris.
Quando do Inquérito, apontei para que os nomeasse, o dos quadris largos era sua mãe, o apêndice que sugeria algo como: “Preso à barra da sua saia”, o paciente se auto-reconheceu, e os outros eram seus irmãos. Sugeri que fizesse um outro desenho, mas, com a sua família: mulher e filho (esta fora a intenção inicial). Desta vez apareceram figuras, mas sem se tocarem: Um homem, na direita do papel, olha para o oeste; uma mulher no seu lado esquerdo, olha para o leste, e uma criancinha dava a impressão de engatinhar alheia ao casal. Ao chamar sua atenção para estes detalhes, o paciente se conscientizou das suas dificuldades, e pareceu disposto a repensar e a assumir seu casamento.
Um outro paciente, este já em fase de ser liberado para cirurgia bariátrica, se dizia muito bem, e que havia superado o trauma de hospital, etc. Sugeri que ele fizesse a cena desse dia tão sonhado. No desenho bem elaborado - não quer dizer bonito, perfeito, mas, que seus componentes estão nitidamente representados -, se evidenciou uma figura de barriga enorme, deitada na mesa de cirurgia sob um grande refletor, e com os olhos arregalados em direção à porta. Ao longo do seu corpo três pessoas identificadas como o cirurgião, a anestesiologista e uma enfermeira. Com base nesse “olhar de pavor com desejo implícito de fuga”, ele resolveu adiar a cirurgia, por uns quinze dias, com o objetivo de explorar um pouco mais esse medo.
Uma examinada, no psicotécnico, achou que a perfeição do desenho seria considerada, daí reforçou e retocou todos os desenhos. Seu H-T-P ficou bizarro, e adquiriu uma outra conotação. Esse fato junto à mesma atitude no Teste Palográfico de reforçar os traços (palos), quando da contagem dos mesmos, contribuíram para a sua não indicação. Num concurso público bastante concorrido, uma candidata à vaga de Agente de investigação (função fictícia para dificultar associações), de repente, por conta de uma pergunta da sua concorrente, durante a realização de um teste, ficou agressiva, e bastante exaltada. Seu protesto tinha um pouco de pertinência, houve de fato uma pequena interferência, mas que não devia ter ocorrido. Porém, não chegara a prejudicar o andamento do todo.
Quando reunidos para discutirmos o caso, a psicóloga e o estagiário responsáveis pela sala, estavam se sentindo profundamente culpados e incompetentes. Na função de um dos membros da coordenação do evento, chamei a atenção de que lhes tinha faltado uma prontidão para conter essa interferência, mas que a reação da moça fora exageradamente desproporcional ao incidente. Na análise do seu teste, todos os desenhos, em especial o da figura humana apresentava vários indicativos de intensa agressividade. Chegou-se a conclusão de que a sua agressividade e tensão não eram reacional a situação da testagem, mas constitucional à sua personalidade. A candidata foi considerada, temporariamente, inapta para o cargo.
O desenho tem a função de estabelecer contato, investigação e tratamento. Na comunicação verbal o examinado poderá tentar conduzir, com seus argumentos, o interlocutor para determinado foco, persuadi-lo para o que julga ser crucial para conquistar a vaga. Daí a grande vantagem do desenho, o indivíduo não tem a chance de exercitar esse artifício. Assim como o corpo fala, o desenho diz por meio do inconsciente, aquilo que, por cautela ou autocensura, o seu autor não se permite verbalizar. No psicotécnico, os traços de personalidade identificados nos desenhos são comparados ao perfil que se exige para o cargo. Nesse caso, por vezes, sujeitos de elevado nível cultural e consideráveis características pessoais, não são contempladas. Do mesmo modo que, um outro, com menos potencial poderá se adequar melhor a essa função.
Num primeiro momento, esse processo, parece meio sem lógica e, em particular, cruel. Deve-se lembrar que este sistema é capitalista, e que a escolha de um candidato se dá em relação a diversos fatores. Alguns são bem específicos de cada empresa ou processo seletivo. Por exemplo, numa empresa na qual não haja perspectiva de ascensão funcional, colocar uma pessoa com elevado nível de escolaridade, inteligente, e criatividade, numa função “elementar”, sem possibilidade de crescimento, seria condená-la ao desajuste. Também seria motivo de constrangimento indicar uma outra para uma colocação que está além do seu potencial. Ela se desgastaria para atingir um nível razoável de satisfação produtiva, ou não atingiria, gerando frustração, ou mesmo, algo mais sério. Segundo Codo e Vasques-Menezes (apud ABREU et al., 2002), as pessoas entram em burnout4 ao se sentirem incapazes de investir em seu trabalho, e em consequência da incapacidade de lidar como o mesmo.
Um processo seletivo não é pensado em ternos emergenciais. Entre outros, também porque, contratação no Brasil, implica em encargos sociais altíssimos, etc. Na situação de desempregado há disposição sim, mas que, se não forem seguidos os parâmetros racionais de seleção, não há nenhuma segurança de que seja mantida. Atendida as necessidades básicas de subsistência, outras ocuparão o campo psicológico do indivíduo. Assim sendo, vem à tona o velho jargão, de que somente “o casamento da pessoa certa com a função”, poderá resistir às intempéries ocupacionais.
Entre os desenhos, é o da figura humana geralmente o mais realizado, mas, paradoxalmente, é também o mais rejeitado. Para Buck (2003), isso está associado ao nível de desajustamento do sujeito, uma vez que evidencia, mais diretamente, as dificuldades das relações interpessoais e a consciência corporal, mais do que a casa ou árvore. No que se refere aos dados de inteligência, aptidões, etc., feitas as suas devidas ponderações, pode se considerar os mais elevados escores ou percentuais. Ao passo que, na avaliação ou análise da personalidade propriamente dita, os aspectos mais comprometedores são vistos em relação à capacidade adaptativa. Junto a outros itens que poderão ajudar o paciente a superar as suas dificuldade, e, no caso do examinado, no psicotécnico, a enfrentar as situações. Por conseguinte, tenta-se fazer prevalecer o princípio de que, a parte mais saudável, uma vez destacada e valorizada, favorece as outras mais afetadas: “Como alguém conta comigo, eu sou responsável por minha ação perante o outro” (RICOEUR apud SENNETT, 2002: 174). Todo paciente, etc., por mais comprometido que pareça sempre apresenta algum “gancho” como ponto de partida para a sua ajuda.
Porém, nem sempre é fácil de desvelar áreas conflitivas, para perceber os potencias de um candidato, é preciso técnica e atenção, e, no caso clínico, paciência, bem como persistência, para encontrar e alargar as arestas que contribuam para a “cura” do paciente ou remissão do seu sintoma. Van Kolck (1984) salienta que além da projeção5, mecanismos como identificação6 e introjeção7 podem se manifestar, mas certamente a expressão e a adaptação são os dois processos que ocupam lugar de importância quando o desenho é concretizado. A adaptação, expressão e projeção, segundo a autora, estão explícitas no ato de desenhar. Assim sendo, mais do que qualquer outra especificidade de produção pessoal, deve ser visto com bastante critério os aspectos: Adaptativo que diz respeito à adequação à tarefa solicitada, sua correspondência em relação à faixa etária, sexo e, eventual, patologia; Expressivo que analisa o estilo característico da resposta que se mostra por meio gráfico da forma; e o Projetivo que verifica as situações e objetos que denotam conteúdo e a maneira de tratar o tema.
No teste do desenho, embora seu enunciado se refira “ao melhor que o examinado possa desenhar”, a estética ou beleza artística não é considerada, mas os conteúdos que estão representados. Histórias, críticas, sentimentos e emoções verbalizados durante a aplicação e no inquérito são dados complementares que podem até colaborar com o fechamento do Parecer de um Laudo. Tudo que o indivíduo faz, diz, escreve, desenha é uma projeção do seu Eu, ou são fragmentos de si mesmo. Ele pode até não ser exatamente aquilo, mas está de alguma forma, por meio desses sinais, representado. Van Kolck (1984) cogitar que há “casos de rejeição em graus diferentes de intensidade, a partir da negação a desenhar até o não complemento do desenho”(p.10 - grifo da autora).
Na situação de testagem, o discurso de que não sabe desenhar, a priori pode sugerir uma preocupação com a plástica do desenho, mas, na realidade, trata-se de resistência, um mecanismo de defesa, receio de se projetar. De modo geral, “todas as defesas contêm aspectos adaptativos e são indispensáveis para um ajuste adequado à realidade” (PICCOLO, 1995, p.209). É a “melhor solução” (grifo da autora) encontrada pelo sujeito para lidar com as situações, a sua maneira de perceber e conectar-se tanto com a realidade interna quanto com a realidade externa. Em virtude disto, interessa conhecer quais os perigos fantasiados que o ego tenta evitar, e no que acredita como de mais terrível que possa ocorrer caso relaxe essa conduta defensiva (idem, ibid).
Assim como o corpo não mente, e conta coisas sobre a história emocional, e dos mais profundos sentimentos, caráter e personalidade (KURTZ e PRESTERA, 1989), o mesmo pode-se dizer do desenho, que também funciona com uma estrutura similar à grafologia. Assim como na grafologia, o teste do desenho é uma série de atos, de registros gráficos dos movimentos, “quer dizer, como um filme em que o próprio indivíduo plasma, graficamente, seu tipo de inteligência, sua sensibilidade, seus impulsos, suas tendências, suas reações etc.” (VELS, 1997, p.39).
Segundo Vels (1997), a grafologia tem a vantagem de nos dar uma imagem fiel do indivíduo revelada por ele mesmo, sem intermediário e sem risco de inibição e nervosismo que todo teste psicotécnico produz, quando o indivíduo se sente “examinado” (p. 11 - grifo do autor). É verdade que toda situação de testagem gera algum tipo de tensão, mas, se o indivíduo é conhecedor de que sua grafia é objeto de avaliação, por que na grafologia seria diferente? Enfim, no processo psicotécnico,, se destina um tempo para o Rapport8 ou “quebra gelo”, entre outras, para desmistificar os testes, etc., e também para atenuar a ansiedade ou nervosismo dos examinandos (SILVA, 2007).
Tomando por base o exposto poder-se-ia indagar se o treinamento do H-T-P, por exemplo, leva a exposição de desenhos mais satisfatórios? Nunca é demais ressaltar, que não é permitido o treino de qualquer teste psicológico. Isto fere os princípios éticos que regem a categoria, e que está sujeito à invalidação e punição por parte do CFP (Conselho Federal de Psicologia) que regulariza a profissão. Mas, na hipótese de um sujeito recorrer a esse expediente ilegal? Esse macete com o teste do desenho pode até implicar numa vantagem, mas aparente, uma vez que camufla determinados aspectos, mas, dificilmente, não deixará de transparecer as características que, de fato, são inerentes a sua personalidade.
Provavelmente, ficaria um desenho confuso, correndo o risco de que, exatamente por isto, ser preterido, haja vista as incoerências da expressão dos desenhos. Também deve ser considerado o fato de que a avaliação não se dá somente na exclusividade de um desenho ou teste, mas no seu conjunto que subsidia a decisão do examinador. Nesse sentido, Van Kolck (1984) diz que um traço gráfico isolado nada significa. Cada traço deve ser considerado em conexão com os demais e no contexto geral do desenho (p.6). Enfim, o treino não é garantia para assegurar vaga ou carteira de habilitação.
Na perspectiva de ser um psicanalista fazendo outra coisa mais apropriada para a ocasião, Winnicott (apud MENCARELLI e VAISBERG, 2005) propunha uma espécie de jogo de traços e rabiscos no qual cada pessoa deveria finalizar apenas com um desenho esboçado pelo outro. Assim, em poucos encontros era possível chegar ao núcleo problemático do paciente. Apesar desta “deixa” de Winnicott, o desenho na condição de modalidade de teste psicológico é pouco estudado na academia, como consequência seu uso, em termos proporcionais, ainda é bem restrito.
Com exceção da ênfase infantil, e do psicotécnico, o teste do desenho não tem uma presença maciça em termo do auxílio que esse recurso pode trazer. Talvez por consistir-se num instrumento de característica rudimentar - todo mundo, de uma forma ou de outra desenha, rabisca, etc., desde os seus primórdios de criança -, não tenha sido valorizado. Segundo Lipovetsky (2005), “não é mais apenas a riqueza do material que constitui o luxo, mas a aura do nome e renome das grandes casas, o prestígio da grife, a magia da marca” (p. 43). Mas este imperativo simbólico, não é exclusivo da moda. Talvez, nesse universo, seja mais explicitamente ditatorial, todavia está também nos mais diversos universos dos segmentos sociais, mesmo no acadêmico, e nem sempre de modo subjacente.
Enfim, os trabalhos mais expressivos em relação ao desenho estiveram voltados para saúde mental a cargo da Nise da Silveira. Esta psiquiatra que não aceitava o eletrochoque - atualmente denominado eletroconvulsoterapia9 - como meio de tratamento, recorreu ao desenho, modelagem e pintura, na sua assistência aos pacientes psicóticos. Em 28 de setembro de 1956, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente.
O desenho está imerso na realidade social, nas suas mais diversas matrizes de arte, seja mediante das obras clássicas, sofisticadas, estilizadas, e até mesmo nas manifestações dos anseios e protestos populares por meio das grafites de rua. Porém, o desenho na sua função de Avaliação Psicológica, não pode se constituir numa tarefa simplória, não se trata de deleitar ou rejeitar conforme o conforto ou incômodo da percepção. Mas, de ir além, traspassar para enxergar, ali, uma vida imbricada noutras vidas, que almejam pela realização de um sonho, atender uma necessidade, e ter uma chance. Finalmente, o teste do desenho tem o dom de veículo que aproxima, e se faz explicitar dos fragmentos, das nuances de luz e sombra, a compreensão. E, assim, se fecha a gestalt de quem ajuda (psicólogo), e de quem espera ser ajudado (paciente, examinado).
NOTAS:
1. O Inquérito consiste num roteiro padronizado de perguntas que são feitas após a conclusão de cada desenho. Isto não significa dizer que o aplicador não possa explorar, de maneira mais espontânea, itens que não ficaram claros, conforme a necessidade.
2. Teoria da Gestalt afirma que não se pode ter conhecimento do todo por meio das partes, e sim das partes pelo todo, uma vez que o conjunto possui leis próprias que regem seus elementos. Só mediante a totalidade é que o cérebro pode, de fato, perceber, decodificar e assimilar uma imagem ou um conceito. Esta teoria deu origem a Psicologia da Gestalt que, por sua vez, enfatiza os processos que envolvem figura e fundo, e a percepção ativa do indivíduo no aqui e agora (FAGAN e SHEPHERD, 1980). No entender de Rey (2003), a Gestalt move-se claramente em função de uma compreensão holística dos fenômenos psicólogicos.
3. A expressão doença mental foi substituída por Transtorno mental (MATOS; MATOS; MATOS, 2005, p.313).
4. Burnout é um termo de origem inglesa que designa “algo que deixou de funcionar por exaustão de energia” (OLIVEIRA apud SILVEIRA et al., 2005, p.159). Esta síndrome também pode ser definida como um estado de exaustão emocional, física e mental causado por elevado nível de exigência durante longo tempo (PINES e ARONSON apud idem, ibid).
5. Projeção é a operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou coisa, qualidades, sentimentos, desejos que ele desconhece ou recusa em si mesmo. Comum na paranóia, e na superstição dos “normais” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
6. Identificação é o processo psicológico pelo qual se assimila aspecto, propriedade, atributo do outro e se transforma, total ou parcial, segundo esse modelo. Enfim, a personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações (LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
7. Introjeção é processo de aproximar-se da incorporação, que constitui o seu protótipo corporal, mas não implica necessariamente ao seu limite (introjeção do ego, do ideal do ego, etc.). Está estreitamente relacionada com a identificação (LAPLANCHE e PONTALIS, 2004).
8. Maiores informações sobre o Rapport podem ser encontradas no texto: Os Testes Psicológicos e as suas Práticas (SILVA, 2007 - http://www.algosobre.com.br/ - artigos / psicologia).
9. Com base em Fink e Berrios, Perizzolo et al. (2003) dizem que a eletroconvulsoterapia é o tratamento mais controverso tanto quanto mais polêmico da psiquiatria. Sua própria natureza, histórico de abuso, apresentações desfavoráveis da mídia, e testemunhos de pacientes tão convincentes quanto desiformados contribuíram para o contexto de tal visão.
Livro do Autor Valdeci Golançalves
REFERENCIAL
ABREU, K. L. et al. (2002). Estresse ocupacional e síndrome de Burnout no exercício profissional da psicologia. Revista Psicologia: ciência e profissão. Vol. 1, n.1. Ano 22. Brasília: CFP.
BUCK, J. N. (2003). H-T-P: casa-árvore-pessoa, técnica projetiva de desenho: manual e guia de interpretação. 1. ed. Trad. R. C. Tardivo. São Paulo: Vetor.(Uso exclusivo de psicólogos).
CAMPOS, D. M. (1999). O teste do desenho como instrumento de diagnóstico da personalidade: validade, técnica de aplicação e normas de interpretação. 31 ed. Petrópolis-RJ: Vozes.
DELEUZE, G. (1997[1925-1995]). Crítica e clínica. Trad. P. P. Pelbart. São Paulo: Ed. 34.
DELEUZE, G. (2006 [1925-1995]). A ilha deserta: e outros textos. Trad. L. B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminuras.
FAGAN, J. e SHEPHERD, I. L. (1980).Gestalt-Terapia: Teoria, Técnicas e aplicações. 4. ed. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar.
GORSKI, F. T. (2005). Freud, Lacan e o conto da Ilha Desconhecida - Reflexões psicanalíticas acerca de um conto de Saramago. Revista Psicologia: ciência e profissão. Vol. 1, n.1. Ano 25. Brasília: CFP.
HARRIS, D. B. (1981). El test de Goodenough: revision, ampliacion y actualizacion. Barcelona-Buenos Aires: Paidos.
KURTZ, R. e H, PRESTERA. (1989). O corpo revela: um guia para a leitura corporal. Trad. M. A. B. Libanio. São Paulo: Summus.
LAPLANCHE e PONTALIS. (2004). Vocabulário da psicanálise. Trad. P. Tamen. São Paulo: Marins Fontes.
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Método Psicanalítico: 2 - O Método da Ciência | Psicologia

Método Psicanalítico: 2 - O Método da Ciência | Psicologia

Método Psicanalítico: 2 - O Método da Ciência

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Estes fatores, embora tenham contribuído para o esclarecimento do conceito de método e de objeto de cada ciência nos dias de hoje, ainda estavam muito no início de sua discussão e concepção quando da descoberta da psicanálise por Freud e, no meio psicanalítico, os termos ainda guardam a imprecisão de tempos anteriores, do fim do século passado. Assim, nós psicanalistas, somente agora podemos abeberar-nos desta evolução na filosofia para tentar conceituar nosso método e nosso objeto.
Por este motivo o método psicanalítico tem recebido o mesmo tratamento impreciso pela grande maioria de nossos colegas. Seria melhor dizer que é raro que colegas se debrucem reflexivamente sobre o conceito de método psicanalítico, ou seja, que indaguem e busquem esclarecer qual é, exatamente, o método de nossa ciência.
Pelo fato de a psicanálise ter sido descoberta por Freud antes desta evolução, era de se esperar que Freud também cometesse as mesmas confusões próprias à ciência vigentes na sua época. Nem mesmo o texto “O Método psicanalítico de Freud” (Freud, 1904 [1903]) é um detenimento reflexivo sobre o método mesmo quando este dá o nome ao artigo. Este texto deixa bem claro, entretanto, que é o método psicanalítico que distingue o que seja psicanálise: “O método psicanalítico específico que Freud emprega e descreve como psicanálise...”.
Ou seja, método e disciplina confundem-se em uma única coisa. Logo abaixo, no mesmo texto, começa a confusão que vai estender-se primeiro entre método e processo, depois, entre método e técnica. Aquela mesma confusão que encontramos ao tentar encontrar o conceito de método na filosofia e nas outras ciências.
Vejamos pequenas citações, incompletas, todas do mesmo texto:
“... Freud reviveu este processo...” Quando está falando do método..
“As modificações que Freud introduziu no método de tratamento catártico de Breuer foram, de início, modificações de técnica...” Aqui, está falando de método e modificações técnicas, mas não dispõe ainda de recursos para separar método do seu conjunto de técnicas.
Expondo as razões pelas quais deveria procurar um substituto para a hipnose, Freud diz: “A menos que se pudesse produzir um substituto para esse elemento ausente, qualquer efeito terapêutico estava fora de cogitação.
Freud encontrou este substituto — um substituto bem satisfatório — nas ‘associações livres’ dos seus pacientes, ...”
Assim Freud afirma ter encontrado um substituto para a hipnose, seguramente uma parte técnica do método catártico. Portanto, esta última passagem deixa claro serem as associações livres um substituto para a parte técnica do método, a hipnose. É metonímica a tomada da associação livre pelo método psicanalítico, ela é em verdade “uma parte do método”, uma de suas questões técnicas, como vimos.
A afirmativa de ser a associação livre a parte técnica do método psicanalítico é compartilhada por Renato Mezan (Mezan, 1996) que, estudando o mesmo texto, cita esta passagem, de Freud, bastante esclarecedora: “Este trabalho de interpretação aplica-se não somente às ideias do paciente” — às associações livres, portanto — “como também aos seus sonhos, que desvendam a abordagem mais direta a um conhecimento do inconsciente, às suas ações não intencionais e também às sem objetivo (atos sintomáticos) e aos erros grosseiros que pratica em sua vida cotidiana (lapsos de linguagem, erros palmares e assim por diante).” Ou seja, é sobre tudo isto que se aplica o método psicanalítico — a interpretação — usando, sim, uma técnica — a técnica da associação livre.
Nos artigos sobre técnica, a afirmação: “... a regra fundamental da psicanálise, que estabelece que tudo que lhe venha à cabeça deva ser comunicado sem crítica, ...” (Freud, 1912) merece uma nota de rodapé de James Strachey na qual mostra mais uma vez a característica de técnica e não de método da associação livre: “Este parece ser o primeiro emprego do que doravante tornou-se a descrição da regra técnica essencial.” Assim, parece mesmo não nos restar senão tomar a associação livre como regra técnica e não metodológica.
Há outras ocasiões em que Freud toma técnica por método, vejamos: “Descobrimos métodos técnicos de preencher as lacunas existentes nos fenômenos de nossa consciência...” (Freud, 1940 [1938]) ou “... fazer uma escolha entre dois métodos ou técnicas.” (Freud, 1940a [1938])1.
Parece, portanto, que, quanto à precisa conceituação de método psicanalítico, não podemos contar com Freud, mas quanto à questão de ser a associação livre uma regra técnica, penso que sim. Há, além da passagem citada, uma outra que nos ajuda a pensar desta forma: “Fazemos um pacto com o paciente. O ego enfermo nos promete a mais completa sinceridade — isto é, promete colocar à nossa disposição todo o material que a sua autopercepção lhe fornece; garantimos ao paciente a mais estrita discrição e colocamos a seu serviço a nossa experiência em interpretar material influenciado pelo inconsciente.” Ou seja, sobre a associação livre, aplicamos a interpretação — o método psicanalítico.
Outra constatação “A hipnose, contudo, desempenhara o serviço de restituir à lembrança do paciente aquilo que ele havia esquecido. Era necessário encontrar alguma outra técnica para substitui-la e a Freud ocorreu a ideia de colocar em seu lugar o método da ‘associação livre’.” (Freud, 1924 [1923]). Ou seja, Freud fala de técnica (uma outra “técnica”) e, em seu lugar, propõe “o método da associação livre”.
Acresçam-se as importantes críticas feitas ao associacionismo por Jacques Lacan (Lacan, 1936) e, entre nós, por Isaías Melsohn (Melsohn, 1973, 1978 e 1991).
Um fator importante para agravar a situação da imprecisão foi, sem dúvida, a compreensão distorcida da recomendação de nos afastarmos da teoria para melhor apreensão dos nossos pacientes2.
O viés da metodologia científica é o viés comum a toda ciência e nos aponta, agora, o caminho para a sistematização do conceito de método psicanalítico. Este viés propõe uma pergunta que deve ser respondida: se a psicanálise é uma disciplina científica, qual é seu método e qual é seu objeto? Acompanho Heinz Hartmann (Harrtman, 1958): “A característica que distingue uma investigação psicanalítica não é o tema sobre o qual se debruça, mas a metodologia científica e a estrutura dos conceitos que usa.”
Como vimos, no momento, a metodologia científica já tem como seu que o objeto de cada ciência é ditado pelo método de pesquisa, o objeto de cada ciência é aquele estudado com o método da ciência em questão. Aplicamos o método de uma ciência e seu objeto surge aos nossos olhos. Dito de outra forma, diante dos conhecimentos atuais, o objeto de uma ciência é todo objeto criado pela aplicação do método da ciência com o qual nos proponhamos estudá-lo.
Não confundamos com o objeto artificial criado pela aplicação direta das teorias ao paciente. Se aplicarmos as teorias kleinianas ao nosso paciente, surgirão, sem dúvida, o paciente da posição esquizoparanóide, o da posição depressiva, o da culpa depressiva, etc. Se aplicarmos, por outro lado, o corpo de teorias lacanianas, surgirá, sem dúvida, o sujeito descentrado, ou seja o sujeito cujo pensar se dá em instância alheia ao conteúdo do pensar consciente. E assim, com os conceitos de Winnicott de um si mesmo falso e um verdadeiro; os de Kohut e o ego autônomo, enfim, surgirá sempre o paciente criado (Herrmann, 1991) pela aplicação do método dentro da camisa de força de qualquer teoria.
Qualquer objeto que tomarmos para estudo será objeto da física se for estudado com a aplicação do método da física, se esse lhe for aplicável. Se tomamos seu peso, suas dimensões, usando um dos sistemas de medida consagrados pela física (CGS, MKS), se calculamos seu centro de gravidade, sua elasticidade, seu calor específico, etc., ele será um objeto da física e ele, criado pela física, passará a chamar-se, agora, corpo. Se, por outro lado, fazemos com que entre em contato com outro objeto para observar que reações ocorrem entre eles e que nova combinação de elementos estas reações terão gerado, estaremos examinando-o com o método da química e ele, criado pela química, passará a chamar-se, agora, substância, ou, se preferirmos, receberá, na pia batismal, o nome de substância, filha legítima da química.
Assim com a psicanálise.
Será objeto da psicanálise aquele objeto que for estudado com o método da psicanálise se esse método lhe for aplicável. Ou, sendo mais preciso, será objeto da psicanálise aquele objeto criado pela aplicação do seu método e por meio dele estudado.

1 - Em todas as citações, os grifos são meus.
2 - Recorde-se que esta recomendação foi extraída de uma observação de Freud: “Tal aplicação da hipótese também poderia trazer consigo um retorno proveitoso da cinzenta teoria para o verde perpétuo da experiência.” (Freud, 1924 [1923]). Freud parafraseia o Fausto de Goethe (Goethe, 1832). Foi uma escolha infeliz de Freud, pois a frase parafraseada:
“Cinzenta, caro amigo, é toda teoria,
Verdejante e dourada é a árvore da Vida!”
é dita por Mefistófeles depois de pensar:
“Já cansei de falar austero e com bom siso,
Vou passar a expressar-me, agora, qual demônio.”
Segue-se longa explanação sobre a medicina e a ciência, uma intervenção de Fausto e, a seguir, a frase de Mefistófeles falando, portanto, como demônio, sem dúvida, um mau conselheiro.

icon O Método Psicanalítico por Mário Lúcio Alves Baptista (109 KB)

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